Broqua & Scholberg: os vínculos entre Montevidéu, Pelotas e Liège
Uma casa comercial do Prata ligada a Liège e a Pelotas. O que as fontes permitem afirmar sobre a firma, a marca Sol e o prédio que hoje abriga o Museo Torres García.
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Já escrevi aqui que a J.M. Mailhos atuava como casa importadora. Era casa importadora: encomendava lâmina na Europa, mandava gravar o próprio nome e vendia como se fosse da terra.
Outra casa de Montevidéu, a Broqua & Scholberg, fez algo diferente — e é justamente por isso que a história dela merece um artigo separado.
Compêndios de colecionadores atribuem à Broqua & Scholberg uma fábrica em Liège. É uma informação relevante, mas ainda sem documento empresarial primário citado aqui.
Uma sociedade desenhada no mapa
O compêndio Hojas y marcas situa em 1882 uma sociedade com três pontas:
- A viúva de Scholberg, radicada em Liège, na Bélgica — a ponta europeia.
- Alfonso Broqua, em Montevidéu — a praça do Prata.
- José e Emilio Catelli, em Rosário — a entrada no interior argentino.
Repare que isso não é uma loja com fornecedores. É uma empresa que ocupa as duas margens do Atlântico ao mesmo tempo, com sócio residente em cada ponta. E vale reparar em quem estava no comando da operação europeia: uma mulher, viúva, tocando a ponta industrial de uma firma de armas no fim do século XIX.
A marca que era só deles
Aqui está o dado que muda a leitura de uma peça.
Quando contei a história das marcas em espanhol encomendadas pelos importadores, listei um repertório de nomes de fantasia: Libertad, Defensa, Patria, El Guapo, Pampa, Sol, Cazador. Todos escolhidos para dizer alguma coisa ao homem do campo.
“Sol” era a marca própria da Broqua & Scholberg — produzida na fábrica que a casa mantinha em Liège, e distribuída pelas filiais da firma.
Essa é a atribuição do compêndio consultado; o carimbo sozinho não comprova em qual estabelecimento cada lâmina foi fabricada.
E existe mais de uma variante do carimbo “Sol”, com gravações diferentes — o que significa que duas peças com a mesma palavra na lâmina podem ser de épocas e séries distintas.
Uma peça da nossa coleção. O carimbo é o sol raiado da casa, com BROQUA & SCHOLBERG e
MONTEVIDEO gravados na vertical logo abaixo — a marca “Sol” na lâmina, o nome da firma
embaixo. O conjunto liga a peça à marca comercial; não certifica, sozinho, fábrica e data.
Onde essas lâminas entravam
As fontes de colecionadores ligam a rede a Rosário, na província de Santa Fé, Montevidéu e Pelotas. A estrutura jurídica de cada estabelecimento pede documentação.
Pelotas. É por isso que este assunto uruguaio não é assunto estrangeiro: existia um balcão da casa em solo gaúcho, e era por ele que aquelas lâminas chegavam ao Rio Grande do Sul por uma rede comercial ligada à firma. Só que lá o carimbo não era o Sol — era outra marca própria, o coqueiro, símbolo de fachada da filial gaúcha. Contei essa ponta da história, com a mesma casa e outro carimbo, no artigo sobre a faca Coqueiro de Pelotas — distinguindo os antecedentes comerciais em Pelotas, associados a 1850, da sociedade citada para 1882. As datas não precisam corresponder ao mesmo evento.
Quem hoje encontra uma peça marcada assim numa feira de Bagé ou num antiquário de Pelotas não está diante de uma faca que atravessou a fronteira por acaso. Está diante do resultado de uma rede de distribuição montada de propósito, há mais de um século.
O prédio construído para o bazar da Broqua & Scholberg, na peatonal Sarandí. Hoje abriga o
Museo Torres García.
Os nomes que a firma teve — e por que isso data a peça
A razão social mudou ao longo do tempo, e nas lâminas isso aparece. Além de Broqua & Scholberg, circulam peças marcadas:
- Scholberg & Cía
- Scholberg, Joucla & Silva
- Scholberg & Gadet
Para o colecionador, essa lista vale mais que uma tabela de preços: a razão social gravada na lâmina é uma pista de data. Sociedade que muda de nome muda por um motivo — sócio que entra, sócio que sai, sócio que morre. Quem conseguir amarrar cada nome a um período consegue datar a peça pela marca, sem depender do estilo do cabo.
Eu não tenho essa cronologia fechada. Se você tem, me escreva — é exatamente o tipo de coisa que este blog existe para publicar.
A lâmina era belga; a prata, daqui
Vale repetir o que já disse no artigo das marcas, porque é o ponto que mais confunde comprador: a lâmina vinha de fora, a guarnição era feita aqui.
Cabo, bainha, virola e trabalho de prata ou alpaca saíam das mãos de ourives do Prata, no gosto local. É por isso que duas facas com a mesma marca de lâmina podem ser objetos completamente diferentes — uma sóbria de campo, outra de prata lavrada para domingo.
Quando você avalia uma dessas peças, está avaliando duas coisas com origens distintas e valores distintos. A lâmina diz quem importou. A prata diz quem trabalhou.
O fim
Há relatos de fabricação regional e de continuidade de marcas no pós-guerra. Sem contratos de licença ou catálogos datados, não é possível concluir que toda a importação cessou ou que qualquer peça posterior tenha origem uruguaia.
A loja da Sarandí, a poucos passos da Puerta de la Ciudadela, atravessou ainda duas décadas e fechou no fim dos anos 1960. Quem tem idade para isso lembra de ter entrado lá.
A Puerta de la Ciudadela, no centro de Montevidéu. A loja ficava a poucos passos daqui —
era este o ponto de referência de quem ia comprar faca na Sarandí.
O prédio sobreviveu
Da firma sobrou o edifício: o bazar art nouveau da peatonal Sarandí, na Cidade Velha, construído para a casa e hoje ocupado pelo Museo Torres García, que se mudou para lá em 1991.
Uma observação para quem for procurar: a casa é lembrada pelo endereço Sarandí 250, que virou até nome de livro, mas teve vários endereços ao longo da história — e o prédio que sobreviveu está hoje numerado Sarandí 683. Se você for a Montevidéu atrás disso, é esse o número que vale.
Dá para entrar, olhar o teto e as grades de ferro, e saber que aquilo já foi uma loja que vendia faca belga como se fosse faca criolla.
Uma ponta solta que eu não consegui amarrar
Existe um Alfonso Broqua célebre no Uruguai: o compositor nacionalista, nascido em Montevidéu em 1876 e morto em Paris em 1946, autor de Tabaré e das Evocaciones Criollas.
O sócio montevideano da firma, em 1882, também se chamava Alfonso Broqua. E o compositor teria seis anos de idade naquele ano — então não é a mesma pessoa assinando o contrato.
Pai e filho? Tio e sobrinho? A biografia do compositor não fala da origem do dinheiro da família, e eu não achei documento que fechasse a ligação. Fica registrado como pergunta aberta, não como fato: seria uma boa história se o homem que musicou o campo uruguaio fosse filho da casa que armou esse mesmo campo.
Se alguém tiver a genealogia, eu publico com crédito.
O que fazer com isso na mão
Três coisas práticas:
Marca de importador não é certidão de nascimento. A associação com Liège é uma pista; confirme-a com documentação da peça e da época.
A razão social ajuda a pesquisar a data. Broqua & Scholberg, Scholberg & Cía, Scholberg Joucla & Silva, Scholberg & Gadet: não são grafias descuidadas da mesma coisa, são momentos diferentes da sociedade.
Pergunte pela procedência. País de fabricação, período, montagem e estado de conservação precisam de evidência. O nome na lâmina, isolado, não define valor.
Para ir fundo
“Sarandí 250”, de Robert Retamar, é o trabalho de referência sobre o assunto — mais de duas décadas de pesquisa sobre a cutelaria e a prataria uruguaias entre 1850 e 1950, montada a partir de guias de época, recibos e faturas, diante da quase inexistência de bibliografia. A primeira edição esgotou rápido.
Créditos das imagens
- Fachada do prédio (capa e interna) — Priscilla Jordão, CC BY 2.0. Recortada para 16:9 na capa.
- Prédio inteiro — Felipe Restrepo Acosta, CC BY-SA 4.0
- Puerta de la Ciudadela — Fatima Cáneba, CC BY-SA 3.0
- Faca com o carimbo “Sol” — foto do autor, peça do acervo do Lâmina Gaúcha. Uso livre neste site; se for reaproveitar, peça.
Fontes
- Museo Torres García — o edifício do antigo bazar Broqua y Scholberg
- Sarandí 250: um livro sobre a cutelaria e a prataria uruguaias — Agesor
- Hojas y marcas — compêndio de marcas de lâmina do Prata
- Alfonso Broqua — Wikipédia em espanhol
Uma ressalva honesta
Boa parte do que se sabe sobre estas casas vem de guias comerciais, catálogos de leilão e do trabalho de colecionadores, não de arquivo empresarial preservado. Datas e composições societárias podem ter variantes.
Se você tem uma peça marcada Broqua & Scholberg, Sol ou qualquer uma das razões sociais acima — principalmente com nota fiscal, catálogo ou documento de família junto —, me escreva. Crédito garantido, e a peça entra para o registro.
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