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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa

A faca Coqueiro, a belga que virou ícone gaúcho em Pelotas

Uma das marcas tradicionais do campeiro rio-grandense é associada a uma árvore de Pelotas e a lâminas importadas da Bélgica. Ela vinha da Bélgica, e a história de como isso virou lenda diz mais sobre o Rio Grande do que qualquer certidão de origem.

  • História
  • Rio Grande do Sul
Fileira de casarões históricos de fachada eclética, em tons de amarelo, branco e vermelho, com sacadas de ferro trabalhado e platibandas ornamentadas, numa praça de pedras portuguesas de Pelotas, sob céu azul.

Pergunte para um colecionador antigo qual foi a faca mais desejada do campeiro gaúcho, e uma resposta comum vem quase automática: “a Coqueiro, lá de Pelotas”. É ditado de campo, é verso de poeta, é peça de família guardada com orgulho de “made in Rio Grande”. Só que a certidão de origem conta outra história — e ela não é menos gaúcha por isso.

A faca que não nasceu onde todos juram que nasceu

A Coqueiro histórica ligada à Casa Scholberg é descrita nas fontes locais como importada, quase pronta, de uma fábrica com sede comercial em Liège, na Bélgica. O que acontecia em solo gaúcho era só a etapa final: encabar e embainhar a lâmina que já vinha de fábrica com a marca estampada no aço.

Isso não é desonra nenhuma — é o mesmo caminho de boa parte da cutelaria fina que circulava no Prata no século XIX, como já contamos na história da faca gaúcha. O que faz da Coqueiro um caso à parte é o tanto que Pelotas se apropriou dela: a marca virou tão identificada com a cidade que, cento e poucos anos depois, ainda se ouve por aí que ela era daqui.

A Casa Scholberg e o comércio da fronteira aberta

A ponte entre Bélgica e pampa tinha nome de firma: Scholberg. Já contei por aqui a versão do lado uruguaio dessa história, a Broqua & Scholberg de Montevidéu, com fábrica própria em Liège e sociedade fechada em 1882 entre a viúva Scholberg, Alfonso Broqua e os irmãos Catelli. A filial de Pelotas é — mesmo sobrenome, outra praça e antecedentes comerciais que precisam ser distinguidos das reorganizações posteriores.

Segundo a história local reunida no blog Pelotas de Ontem, o comércio que viraria Casa Scholberg em Pelotas remonta a 1850, aberto por Vicin Laport e depois tocado como “Viúva Laport & Irmão”. Foi só numa reorganização posterior — a Casa Scholberg local situa isso por volta de 1882, a mesma data em que a Broqua & Scholberg se formaliza do lado de Montevidéu — que o negócio vira “Scholberg, Joucla & Silva”, com Guilherme Scholberg, o francês Leopoldo Joucla (vice-cônsul da França na cidade, também ligado ao comércio dos vinhos franceses que chegavam ao porto de Pelotas) e Francisco Eurico da Silva no comando. A casa vendia armas, metais finos, cutelaria e artigos de caça e pesca, e em 1900 ainda cresceu comprando “A Estrela”, outra fábrica de armas da cidade, que dava nome a facas próprias.

Em 1888 o endereço já era nobre: um prédio elegante na Rua Sete de Setembro, esquina com Andrade Neves — vitrine à altura do que vendiam.

Fileira de casarões históricos de fachada eclética, em tons de amarelo, branco e vermelho, com sacadas de ferro trabalhado e platibandas ornamentadas, numa praça de pedras portuguesas de Pelotas, sob céu azul Casarões do entorno da Praça Coronel Pedro Osório, no centro histórico de Pelotas — a arquitetura eclética que a riqueza do charque bancou na cidade entre o fim do século XIX e o começo do XX, contemporânea da Casa Scholberg.

A tradição sobre o coqueiro que dava nome

A marca vinha estampada na lâmina em duas variações: o “coqueiro deitado”, ao longo do fio, e o “coqueiro em pé”, atravessado. Algumas peças traziam também uma estrela de cinco pontas ao lado do desenho.

A tradição local associa o nome a uma árvore em frente à loja. Um coqueiro ficava plantado na calçada em frente à loja, na Andrade Neves, 651, servindo de ponto de referência e propaganda ao vivo para quem passava. Reza a tradição pelotense que o pé sobrevive até hoje no centro da cidade, décadas depois de a firma ter fechado as portas — o letreiro virou árvore, e a árvore virou lenda.

Por que o gaúcho escolhia a Coqueiro

No campo, a fama da marca não vinha de ourivesaria nem de estojo de apresentação: vinha de serviço. Entre as várias linhas que a Scholberg trazia da Bélgica, a preferida era justamente a Coqueiro deitado, descrita pelos próprios usuários como “ferro branco pra qualquer coisa” — aço que dava conta de qualquer tarefa campeira, do repasto ao trabalho de laço, sem embromação.

Três gaúchos em pose de esgrima criolla, cada um com o poncho enrolado no braço como escudo e a faca na outra mão, cavalos e cães ao fundo, em fotografia de cerca de 1890 Gaúchos em esgrima criolla, prática de treino e disputa com faca e poncho-escudo comum na campanha do Prata. A imagem registra uma prática regional; não permite identificar a marca das facas.

Essa reputação prática é o motivo pelo qual a marca sobreviveu ao esquecimento que engoliu tantas outras importadoras da época — e por que, quando a firma fechou, o que sobrou dela virou artigo de estimação.

O fim da firma e o começo do mito

A Casa Scholberg encerrou as atividades em 1936, depois de mais de oito décadas de comércio em Pelotas (com uma reabertura registrada em 1926, sob Maria Scholberg e o capitão Silvino Joaquim Lopes). A partir daí, cada faca Coqueiro que restou em cabo de campeiro deixou de ser mercadoria e virou peça de família — “joia gaúcha”, no dizer de quem escreveu sobre o assunto depois.

O poeta Jayme Caetano Braun teria imortalizado a Coqueiro em verso, ao lado de outras facas de nome que compõem o imaginário campeiro — companhia e não coincidência: a Coqueiro não era só ferramenta, era distintivo de quem a carregava.

Fachada de estação ferroviária de estilo eclético, com torre central, telhado de telhas e pátio de pedras portuguesas em desenho geométrico, sob céu azul, em Pelotas A antiga Estação Férrea de Pelotas, inaugurada em 1884 por um consórcio francês — outro sobrevivente do mesmo período de fartura que sustentou o comércio fino da cidade, do charque que enchia os navios ao capital estrangeiro que abria firmas como a Scholberg.

Uma pegadinha para quem for atrás do nome hoje

Existe uma empresa atual que usa o nome Facas Coqueiro e apresenta uma história secular. A página institucional consultada não esclarece a cadeia de sucessão da marca em relação à Casa Scholberg. Portanto, não é seguro afirmar nem continuidade jurídica nem ausência completa de relação sem documentos. Uma faca atual também não deve ser datada pela história de uma marca antiga.

A mesma casa, duas marcas

Vale juntar as pontas com o artigo da Broqua & Scholberg: tudo indica que era a mesma rede — Liège como fábrica e sede comercial, filiais espalhadas pelo Prata e pelo Rio Grande do Sul — vendendo marcas próprias diferentes por praça. Em Montevidéu e Rosário, o carimbo da casa era o “Sol”. Em Pelotas, era o coqueiro. Faz sentido: cada filial tinha seu símbolo de fachada e seu público, e a lâmina saía da mesma fábrica europeia com timbres diferentes conforme o destino. Achei inclusive registro de leilão de uma peça gravada “Scholberg & Cia Pelotas Liège” com o coqueiro — o mesmo padrão de “razão social + cidade + fábrica” que o artigo da Broqua já tinha mapeado para Montevidéu.

As datas de 1850 e 1882 podem descrever eventos diferentes: o comércio antecessor e uma reorganização societária. Não há contradição automática entre elas. A relação jurídica entre as casas de Pelotas e Montevidéu ainda pede contratos, anúncios ou registros comerciais de época.

Também não confirmamos, em registro recente, que a árvore apontada pela tradição ainda seja a mesma ou permaneça no local. Esse detalhe fica como memória local, não como informação atual verificada.

O que fica

A Coqueiro resume bem uma coisa que este espaço já defendeu no artigo sobre a origem da faca gaúcha: a lâmina mais identitária do pampa quase sempre chegou de fora antes de virar daqui. O que fez dela gaúcha não foi a forja, foi o uso — a mão que confiou nela no campo, dia após dia, até a marca de fábrica virar apelido de família.

Se você tem uma Coqueiro autêntica guardada — com a árvore gravada na lâmina, deitada ou em pé — vale muito a peça: fale com a gente pelo contato do site. É exatamente esse tipo de material que ajuda a manter essa história viva e documentada.


Créditos das imagens

Fontes

Peças reais em circulação (sem foto aproveitável aqui por direito autoral do vendedor, mas prova de que a faca existe fora da lenda):

A bibliografia sobre a Casa Scholberg é de blog e memória local, não de arquivo acadêmico — como é comum em marcas extintas há quase um século. Correções documentadas (jornal de época, inventário, foto da própria faca) são bem-vindas e serão incorporadas.

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