Cazador, Sol, Pampa: as marcas que enganam meio mundo
Por que uma faca criolla antiga tem nome em espanhol gravado na lâmina, mas foi feita na Alemanha ou na Inglaterra. A história das marcas encomendadas pelos importadores do Prata — e da casa de Montevidéu que abriu filial em Pelotas.
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Pegue uma faca criolla antiga numa feira de antiguidades. Olhe a lâmina. Está escrito CAZADOR. Ou SOL. Ou EL ESTRIBO, LIBERTAD, PATRIA, PAMPA.
Nome em espanhol, gravado com capricho. Parece coisa nossa, feita aqui.
Quase nunca é. Essa lâmina provavelmente nasceu em Solingen, na Alemanha, ou em Sheffield, na Inglaterra. E o nome em espanhol estava ali por encomenda.
A marca era pedida, não escolhida
Esta é a chave para entender qualquer faca criolla antiga.
Os importadores e casas comerciais do Prata não compravam lâminas anônimas para depois carimbar. Eles encomendavam ao fabricante europeu que gravasse, ainda na origem, marcas com nome de fantasia em castelhano — nomes escolhidos para soar bem ao ouvido do comprador criollo.
O gaúcho e o paisano tinham orgulho da marca da própria faca. As casas sabiam disso e ofereciam marcas ostentosas, feitas sob medida para esse mercado. Era estratégia comercial, e funcionou tão bem que dois séculos depois a gente ainda confunde a marca com a origem.
Um gaúcho fotografado em 1868. Repare na cintura: a rastra de moedas de prata no tirador e,
logo ao lado, o cabo do facão com a ponta da bainha aparecendo. Era para este homem que as
marcas em espanhol eram inventadas.
O catálogo dos nomes
Alguns dos nomes que aparecem nas lâminas antigas do Prata:
Libertad · Defensa · Patria · El Guapo · El Estribo · Corte Criollo · Pampa · Sol · Cazador
Repare no repertório: liberdade, pátria, defesa, coragem, o estribo, o sol, o caçador. Nenhum deles é nome de fabricante. Todos são palavras escolhidas para dizer alguma coisa ao homem do campo daqui.
Havia também as marcas de figura, para quem não lia: um sol, um estribo, um caçador, o rosto da Liberdade. E a mais famosa de todas, o arbolito — a arvorezinha da casa alemã H. Böker & Co., de Solingen, que virou sinônimo de faca boa em toda a região.
Era marca reconhecível de longe, por quem nunca tinha visto uma letra na vida.
De onde vinha o aço, de verdade
Os fabricantes por trás dessas marcas em espanhol eram, em grande parte, estes:
De Solingen, na Alemanha — H. Böker & Co. (o arbolito), Weyersberg e W.R. Kirschbaum (as duas casas se fundiram em 1883), Ed. Wüsthof, Mann & Federlein, J.E. Bleckmann.
De Sheffield, na Inglaterra — Joseph Rodgers & Sons, Lockwood Bros. (esta última responsável pela marca Pampa), Samuel Kitchin, James Burnand, Needham Veall & Tyzack.
De Liège, na Bélgica — as lâminas da casa que vem a seguir.
Havia ainda fabricação local do outro lado do rio, em Tandil, na Argentina, com marcas como La Movediza, Allende, Leguizamón y Bellver e JU-CA.
A antiga John Watts Cutlery Works, em Sheffield. Era de prédios como este — e das oficinas
de Solingen — que saíam as lâminas com nome de fantasia em espanhol.
A casa que dominou: Broqua & Scholberg
Se existe uma marca uruguaia que merece um artigo inteiro, é esta.
A Broqua & Scholberg foi fundada em 1882, em Montevidéu. Funcionava como armaria, bazar e ferragem, e teve vários endereços ao longo da história — o mais lembrado deles, Sarandí 250, virou nome de livro. De origem belga, mandava fabricar suas lâminas na cidade de Liège.
E aqui vem o dado que interessa diretamente a quem coleciona no Rio Grande do Sul: a casa não ficava só em Montevidéu. Teve filiais em Rosário, Santa Fé, Montevidéu e — atenção — Pelotas.
Era por ali que aquelas lâminas entravam no mercado gaúcho.
Depois da Segunda Guerra, há relatos de continuidade local e de peças com a mesma marca e origens diferentes. Sem contratos ou catálogos datados, não é possível afirmar que toda a produção tenha passado a ser local sob licença.
Como isso ajuda a olhar uma peça
Três coisas práticas que este assunto ensina:
O nome na lâmina não diz onde ela foi feita. Diz para quem ela foi vendida. É marca de importador, não certidão de nascimento.
A prataria quase sempre é daqui. A lâmina vinha de fora, mas cabo, bainha, guarnição e trabalho de prata ou alpaca eram executados por ourives do Prata, ao gosto local. É por isso que duas facas com a mesma marca de lâmina podem ser completamente diferentes.
Marca igual pode ter épocas diferentes. No caso da Broqua & Scholberg, uma peça pode ser de lâmina belga importada ou de fabricação uruguaia sob licença do pós-guerra. Saber disso evita pagar caro por peça mais nova do que parece.
A fonte que vale procurar
Se este assunto te pegou, existe um trabalho sério sobre ele.
“Sarandí 250”, de Robert Retamar, cobre aproximadamente o período de 1850 a 1950 da cutelaria e da prataria uruguaias. O autor levou mais de duas décadas na pesquisa e, diante da escassez de bibliografia, reconstruiu a história a partir de guias de época, recibos e faturas comerciais das casas.
É dele também um levantamento: prateiros atuantes no período 1870–1885 incluíam italianos e portugueses, entre eles Carlo Bellini, que trabalhou durante a presidência do general Máximo Santos e ensinou na Escuela de Artes y Oficios.
Há ainda “El facón oriental: marcas de antiguos cuchillos criollos del Uruguay”, de Diego Velázquez Lafferranderie, 2ª edição de 2014, catalogado na biblioteca do Parlamento uruguaio.
A mesma história, contada do outro lado
Já escrevemos aqui sobre Solingen, a cidade alemã que fez o aço. Este artigo é o que aconteceu quando esse aço chegou ao Prata: virou marca em espanhol, ganhou prata trabalhada por ourives daqui e acabou no cinto de gente que nunca ouviu falar da Alemanha.
E há uma lição para o cuteleiro de hoje, que forja a própria lâmina no fundo de casa: por mais de um século, a faca do nosso campo teve alma daqui e aço de fora. Quem hoje forja o próprio aço está fazendo algo que, na história longa desta região, é mais raro do que parece.
Procuram-se fotos das marcas
As imagens deste artigo mostram o contexto — o homem, o uso, a fábrica. Falta o principal: a marca gravada na lâmina. Não existe nenhuma foto assim em domínio público, e as que circulam estão em anúncios de leilão, com direito autoral de quem fotografou.
Se você tem uma peça antiga com a marca visível — um CAZADOR, um SOL, um arbolito, uma
Broqua & Scholberg — e topa que ela ilustre este texto, me escreva. Crédito
garantido, e a peça entra para o registro.
Créditos das imagens
- Gaúchos em esgrima criolla, c. 1890 — Frank G. Carpenter (1855–1924), domínio público
- Gaucho of the Argentine Republic, 1868 — Eugenio Courret, domínio público
- John Watts Cutlery Works — Warofdreams, CC BY-SA 3.0
Fontes
- Hojas y marcas — Antigüedades Necochea
- Sarandí 250: um viaje a través de la historia de la cuchillería y la platería en Uruguay — Agesor
- El facón oriental: marcas de antiguos cuchillos criollos del Uruguay — Biblioteca del Parlamento del Uruguay
- Facón — Wikipedia
Listas de marcas e fabricantes deste tipo circulam sobretudo em publicações de colecionador, de rigor variável. Tratei os nomes de casas e fabricantes como indicativos, não como catálogo definitivo. Correções são bem-vindas — e serão publicadas.
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