Lâmina com história Caso nº 1
Eu tenho essa tesoura de tosquia, com a descrição Juan Mailhos — Montevideu em uma lâmina e na outra um desenho de um soldadinho de chumbo. Sabem me explicar por que o soldadinho?
A tesoura de tosquia da Mailhos e o "soldadinho" que era um caçador
A peça- Peça
- Tesoura de tosquia de ovelhas, duas folhas, aço carbono
- Marca punçoada
- "JUAN M. MAILHOS / MONTEVIDEO", numa das folhas
- A figura
- Caçador apontando a espingarda, emblema da Armería del Cazador
- Quem vendeu
- Armaria J. M. Mailhos, rua 18 de Julio nº 15, Montevidéu
- Quem fez
- Fábrica inglesa, de Sheffield, provavelmente. Sem catálogo que confirme qual.
- Época
- Entre os anos 1880 e os anos 1920
O "soldadinho" é o caçador da casa Mailhos. A tesoura é inglesa, vendida em Montevidéu com o nome do importador, de quando a tosquia ainda era a tesoura e a tesoura era do tosquiador.
Grau de certeza média
Esta é a primeira Lâmina com história, e ela não nasceu no direct. Nasceu num comentário, embaixo de um dos nossos posts, com a pergunta que está aí em cima.
Duas horas depois, o @dastrevasx respondeu:
“Na verdade é um caçador, símbolo da marca, conhecidas pelas variações como cazador al filo, cazador a la punta e armería del cazador.”
A conversa como aconteceu, nos comentários do @lamina.gaucha. A pergunta do @milano80.369
e, duas horas depois, a resposta do @dastrevasx. É assim que a série funciona: quem sabe
mais chega antes da gente.
Está certo. E a história por trás dessa resposta de duas linhas é boa demais para ficar enterrada num comentário.
O que está escrito na lâmina
Numa das folhas, em duas linhas punçoadas no aço: JUAN M. MAILHOS e, embaixo, MONTEVIDEO. A inicial do meio está gasta; na foto lê-se “M”, e é assim que o nome aparece em peças da mesma casa que passaram por leilão: Juan M. Mailhos, Montevideo.
Quem leu o artigo sobre a Mailhos já sabe o que esse nome significa: casa importadora, não fabricante. A Armería del Cazador, da rua 18 de Julio, foi fundada por volta de 1860 por Luis Mailhos Lavedan, um serralheiro dos Altos Pirineus. Não tinha forja. Tinha balcão, e o nome da família gravado no aço dos outros.
E aqui a tesoura ajuda a fechar uma ponta que o artigo deixou aberta. Lá, dissemos que as iniciais “J.M.” apareciam nas fontes ora ligadas a um Juan María, ora à gestão de Julio sobre o negócio do pai. A tesoura diz Juan, por extenso. Os registros de família dão a Luis e Narcisa quatro filhos, entre eles Julio (1855–1915), que foi para o tabaco e fez fortuna, e Juan María Mailhos Baleix, casado em Montevidéu em 1882. Tudo indica que foi Juan María quem ficou com a armaria quando o irmão saiu para o fumo, e que é o nome dele que está nesta lâmina.
O “soldadinho” é um caçador
Na outra folha, uma figura em pé, de perfil, com uma linha comprida saindo na diagonal. O dono da peça viu um soldadinho de chumbo. É uma leitura honesta: cem anos de ferrugem comem o desenho e sobra uma silhueta.
Mas a silhueta é a de um caçador apontando a espingarda. É o emblema da casa, o mesmo que aparece nas facas e facões que a Mailhos vendia. Era a marca de figura, para quem não sabia ler, como o sol, o estribo e a arvorezinha da Böker de que já falamos no artigo das marcas criollas.
Os apelidos que o @dastrevasx citou, “cazador al filo” e “cazador a la punta”, vêm da direção em que o caçador mira: para o fio ou para a ponta da lâmina. Em faca, isso ajuda a datar, porque as peças “al filo” são as importadas antigas e as “a la punta” vieram depois da Segunda Guerra. Numa tesoura o critério não transfere direto, porque não há “fio” no sentido de uma faca, mas a figura em si diz o essencial: saiu do balcão da Mailhos.
Uma tesoura inglesa com nome uruguaio
A Mailhos não fabricava faca, e tampouco fabricava tesoura. A tesoura de tosquia do século XIX era, antes de tudo, um produto de Sheffield.
A casa mais conhecida, a Burgon & Ball, faz tesoura de tosquia desde 1730. Em 1865 James Ball patenteou um processo de fabricação em aço maciço, e no auge a produção passou de 300 mil pares por ano, com exportação declarada para a América do Sul já em 1897. Outras casas da cidade, como Ward & Payne, disputavam o mesmo mercado.
O padrão do Prata era o mesmo das facas: o importador encomendava e a peça chegava com o nome dele gravado. Quem procurar hoje tesouras antigas no Uruguai vai achar o nome de Mailhos ao lado dos de Broqua & Scholberg e Varela Radio, as outras casas de Montevidéu, e ao lado da própria Burgon & Ball, que também vendia com o nome de fábrica.
Não achamos, nas fontes que consultamos, um catálogo que diga de qual fabricante inglês saíram as tesouras da Mailhos. Isso fica em aberto, e é o tipo de coisa que um leitor com um catálogo antigo da casa resolve numa mensagem.
De quando ela é
Sem catálogo e sem número de série, a datação é por cerco.
Juan María aparece como adulto em Montevidéu a partir dos anos 1880. A tesoura de mão reinou no campo uruguaio até a década de 1920, quando a máquina de tosquia se impôs de vez. A primeira máquina entrou no país em 1893, mas até a virada do século chegavam duas ou três por ano. Depois disso a tesoura de mão não desapareceu, mas deixou de ser a ferramenta de quem vivia disso.
Juntando as pontas: a peça deve ter sido vendida entre os anos 1880 e os anos 1920. Quarenta anos de margem, e é o melhor que a honestidade permite.
O que a tesoura conta sobre a tosquia
Esta parte vale mais do que a datação.
O galpão de tosquia da estância Buen Retiro, em Paysandú, em 1904. O eixo e as polias no
alto da parede acionavam as tesouras mecânicas. No mesmo ano em que esta foto foi tirada,
a comparsa da foto de capa ainda tosquiava a mão.
Antes da máquina, a tosquia era a tarefa mais organizada do campo. Uma comparsa de tosquia tinha funções fixas: o agarrador pegava a ovelha no curral e a deixava maneada diante do tosquiador; o esquilador tirava o velo em cortes seguidos, de modo que a lã saísse inteira, como uma manta; o vellonero levava o velo e pagava ao tosquiador a sua tarja, uma ficha de metal que no fim do dia virava jornal; o atador enrolava, o embolsador prensava com os pés dentro do saco, e o barredor mantinha a cancha limpa e levava o remédio quando o corte pegava o animal. Em cima de todos, o capataz da comparsa.
Até 1880, nas estâncias uruguaias, davam tesoura também às mulheres que pedissem. Eram chamadas de “tijeras”. Há registro de uma que tosquiava cem ovelhas por dia.
E o detalhe que esta tesoura carrega: ela era do tosquiador. O sociólogo Emilio Fernández Rondoni, da Universidad de la República, descreve a chegada da máquina como um divórcio entre o trabalhador e a ferramenta. Com a tesoura de mão, o tosquiador era “patrão, ainda que só de si mesmo”, porque a ferramenta era dele. Com a máquina, a tesoura passou a ser do dono da estância ou do maquinista, e ele virou assalariado.
Uma tesoura como esta, com o nome da armaria de Montevidéu, foi comprada por alguém que vivia dela. Andou de estância em estância na primavera, foi afiada mil vezes, e foi guardada quando deixou de dar de comer.
O que ela virou depois
Hoje, no Uruguai e no Rio Grande, as tesouras antigas de tosquia que aparecem em galpão têm um destino conhecido: viram faca. O aço de Sheffield, depois de um século, ainda tempera bem, e há cuteleiro que trabalha quase só com elas.
É uma volta completa. A casa de Montevidéu vendia lâmina inglesa com nome uruguaio. Cem anos depois, um cuteleiro de fundo de quintal pega aquela mesma lâmina, forja, tempera, põe cabo e assina com o nome dele. Desta vez, o nome na faca é o de quem fez.
Se a tesoura desta história um dia virar faca, a gente quer saber.
Como participar da série
Lâmina com história é isto: uma peça antiga que está na sua casa, uma pergunta, e a gente tentando responder junto com quem lê. Não garantimos resposta. Garantimos que vamos procurar, e que o que acharmos sai publicado aqui, com o crédito de quem mandou.
Mande pelo direct do @lamina.gaucha uma foto da marca e uma do cabo, com luz rasante, de lado, para o relevo aparecer. Se souber de quem herdou, melhor ainda.
Créditos das imagens
- Esquila, 1904 — Jesús Cubela, acervo do Museo Histórico Cabildo de Montevideo, domínio público
- Galpón de esquila, 1904 — arquivo Barreto & Morató, reprodução de Alfi1781, CC BY-SA 4.0
Fontes
- Hojas y marcas — Antigüedades Necochea, verbetes “J. M. Mailhos” e “El Cazador”
- Julio Mailhos — Wikipedia em espanhol
- Juan María Mailhos — árvore genealógica no Geneanet
- R. Emilio Fernández Rondoni, El maquinista de esquila, ¿empresa u oficio?, Facultad de Agronomía, Universidad de la República
- Our heritage timeline — Burgon & Ball
- Dos de tijeras Burgon y Ball — fórum Supervivencia Uruguay
Mande a sua. A gente procura junto.
Não garantimos resposta. Garantimos que vamos atrás, e que o que acharmos sai publicado aqui, com o seu crédito.
Mandar no direct- Foto da marca de lado, com luz rasante, para o relevo aparecer
- Foto do cabo e da peça inteira, se der
- De quem herdou se souber. Uma linha já ajuda a datar