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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa# O ARTIGO FALA DELE, entao o perfil dele lista este texto -- e o

Don Cássio Selaimen: a lenda

Um dentista que forjou a primeira faca aos 40 e passou dez anos sem vender nenhuma. A história do cuteleiro que levou um punhal a leilão beneficente e doou o dinheiro inteiro para uma UTI neonatal.

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  • História
  • Rio Grande do Sul
Don Cássio Selaimen de perfil sobre fundo preto, erguendo horizontalmente uma faca de lâmina larga, com seu nome em letras douradas ao fundo.

Em 2018, um punhal de aço damasco feito à mão por Don Cássio Selaimen foi a leilão beneficente, segundo o relato do próprio cuteleiro.

Quem o forjou não ficou com um centavo. O valor inteiro foi para a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, para a compra de equipamentos da UTI neonatal.

Essa é a história que todo mundo conta sobre Don Cássio Selaimen. Mas ela não é a parte mais impressionante.

O dentista que virou cuteleiro

Cássio Selaimen não veio da forja. É cirurgião-dentista formado pela UFRGS em 1991, mestre em Ortodontia pela UNESP de Araraquara em 1997 e doutor pela mesma instituição em 2000. Foi professor antes de se dedicar à clínica.

A cutelaria chegou depois, e chegou pelo estudo. Em 2002 começou a estudar o ofício com bibliografia importada da Europa e dos Estados Unidos. Isso não significa que não existissem outros mestres ou oficinas de cutelaria no Brasil. Levou dois anos lendo antes de bater a primeira peça.

Em 2004 saíram as primeiras facas artesanais e nasceu a marca C. Selaimen.

Dez anos sem vender uma faca

Aqui está a parte que ninguém conta, e que explica o resto.

Segundo seu relato, durante os primeiros dez anos, Don Cássio não vendeu suas peças autorais. A reportagem da ABCCC de 2014 já distingue essas peças de uma pequena linha comercial. Não por falta de procura — a demanda existia e era grande. Ele simplesmente não colocou nenhuma à venda.

As peças iam para três destinos: premiações tradicionalistas, amigos, e leilões beneficentes. Uma década inteira forjando para dar.

É desse período que vem tudo o mais. Quando uma faca não tem preço, o que circula sobre ela é história. As peças foram parar nas mãos certas, os prêmios que elas coroavam ganharam peso, e o nome se espalhou pelo Rio Grande do Sul sem nunca ter passado por uma vitrine.

O ritmo

Segundo o cuteleiro, peças de sua produção autoral podem levar de quatro a cinco meses para ficar prontas; o prazo não descreve necessariamente todos os modelos. Aço damasco, trabalho de martelo — e as marcas do martelo ficam à vista, de propósito. É o oposto do acabamento industrial que apaga o gesto de quem fez.

Ele chama o que faz de faca gaúcha, e o padrão é rústico, puxado da cultura tradicionalista. Nada de peça de vitrine polida até sumir a mão do autor.

Don Cássio na bigorna, de avental de couro e óculos de proteção, martelo erguido sobre uma peça de aço em brasa segura com a tenaz O gesto que fica na peça. As marcas do martelo não são apagadas no acabamento — são a assinatura.

E há um outro ritmo nessa história, que é o mais improvável de todos.

As facas que viraram música

No fim de 2004 — o mesmo ano das primeiras peças — o músico e compositor Elton Saldanha conheceu Cássio num jantar entre amigos e se encantou com o trabalho. Da conversa saiu uma faca de um lado e, do outro, uma canção: Elton compôs “Pra Don Cássio Selaimen”, que saiu em 2006 no álbum Tchê Amigos.

Não parou aí. Em 2012 veio um CD inteiro com o mesmo nome, “Pra Don Cássio Selaimen”, com treze faixas inéditas, produzido por Erlon Péricles e pelo próprio Elton Saldanha.

E a homenagem virou mão dupla: um dos modelos da casa se chama Maestro Saldanha, batizado em nome do amigo que fez a primeira música.

Hoje, segundo o próprio Don Cássio, já passam de cinquenta as músicas e poesias escritas sobre as facas dele — a contagem publicada no site oficial, de mais de 25, é de alguns anos atrás e ficou para trás. São autores, poetas e artistas gaúchos consagrados escrevendo, note bem, não sobre o homem: sobre as facas.

É difícil pensar em outro artesão brasileiro vivo de quem se possa dizer o mesmo. Faz-se música sobre santos, sobre cavalos, sobre rios. Sobre a obra de um cuteleiro, quase nunca.

O punhal de “O Tempo e o Vento”

Quando a produção dirigida por Jayme Monjardim levou o romance de Erico Verissimo para as telas, a cutelaria que apareceria em cena precisava ser de verdade. O punhal foi encomendado a Don Cássio: aço damasco random, peça estilizada, sem fio.

Em 2018 ele foi a leilão público. Segundo o que o próprio Don Cássio contou ao Lâmina Gaúcha, o martelo bateu em cerca de 30 mil dólares — a imprensa da época noticiou o equivalente em torno de R$ 105 mil. O site do cuteleiro o descreve como a quarta faca mais valiosa do mundo em leilão público. Não localizamos uma série independente de resultados que comprove esse ranking; a classificação deve ser lida como uma declaração da marca.

E o dinheiro foi inteiro para a UTI neonatal da Santa Casa de Porto Alegre.

Vale reparar que isso não foi um gesto isolado. Em 2008 ele já havia leiloado peça em favor do centro de convivência oncológico da mesma Santa Casa. Entre 2009 e 2011, para a Santa Casa de Uruguaiana. Em 2018, de novo, em parceria com a raça Angus. O punhal de trinta mil dólares não é a exceção na trajetória dele — é o ponto mais alto de uma coisa que ele vinha fazendo desde o começo.

O que ele construiu além das próprias facas

Don Cássio é idealizador, fundador e primeiro presidente da Associação Gaúcha de Cutelaria, e organizador da Feira Anual de Cutelaria Gaúcha. Suas facas integram a premiação do Freio de Ouro. O ano de início não está fechado: o site oficial menciona 2009, enquanto uma reportagem de Luísa Garcia, publicada pela ABCCC em 19 de maio de 2014, já falava em pelo menos oito anos de participação. Mantemos a divergência explícita, sem escolher uma data arbitrária.

A mesma reportagem menciona o CD de treze faixas como lançamento daquele ano, enquanto a biografia oficial o situa em 2012. A data de edição precisa ser conferida no próprio disco. O Prêmio Honra ao Mérito da SOBRASA, em 2009, é informação da biografia publicada pelo cuteleiro.

O tamanho do nome não muda o tamanho do ofício

Don Cássio é conhecido, tem marca consolidada e loja. Alguém pode perguntar se ele ainda conta como artesão.

Conta, e a razão é simples: o critério daqui é como a peça é feita, não o tamanho do nome de quem faz. Um homem que leva quatro meses numa única faca, que bate o martelo e deixa a marca à vista, é exatamente o tipo de artesão que este projeto quer defender. A fama veio depois, e veio por causa do trabalho.

E há uma segunda razão, que é a mais importante para nós.

Don Cássio é a prova de que o próximo existe.

Repare no ponto de partida dele: um dentista de quarenta e poucos anos, sem tradição de família na forja, estudando por livros importados. Nada naquele começo anunciava o que viria. Nos primeiros anos de oficina, se alguém o tivesse visitado, teria visto exatamente o que se vê hoje em centenas de galpões espalhados pelo Rio Grande do Sul: um sujeito qualquer, aprendendo sozinho, batendo o martelo por gosto.

Agora vire a lente. Quantos Don Cássios estão neste momento no fundo de casa, em alguma cidade pequena, e ninguém sabe?

É por isso que este projeto existe. O Lâmina Gaúcha não vai atrás só de registrar quem já chegou — vai atrás de encontrar quem ainda está começando, e de dar a ele a vitrine que o Don Cássio levou dez anos para construir sozinho. Cada perfil publicado aqui é uma aposta de que ali pode estar o próximo.

Se você conhece um cuteleiro assim — daqueles que ninguém conhece, que forja no galpão nas horas vagas, que talvez nem se ache bom o bastante para aparecer — me conte quem é. Pode ser que você esteja apontando para a próxima lenda antes que ela vire uma.


Este artigo foi escrito com informações prestadas pelo próprio Don Cássio Selaimen ao Lâmina Gaúcha, complementadas por material público. Corrija-nos se algo estiver impreciso: faz parte do trato.

Créditos das imagens

Fotos cedidas ao Lâmina Gaúcha, publicadas com autorização.

Fontes

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