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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa

Alpaca, prata 900 ou prata de lei: o que tem no cabo da sua faca

Três materiais diferentes são vendidos com o mesmo nome no balcão da feira. O que querem dizer 925, 900, 800 e ALPACA, o uso de moedas na prataria do Prata e os limites da identificação sem análise profissional.

  • Identificação
  • Prataria
  • Uruguai
  • Argentina
Mate de metal prateado com bombilha metálica espetada na erva, apoiado sobre uma pedra molhada, com vegetação verde ao fundo.

A foto lá em cima é de um mate. Quem tirou a foto e mandou para o acervo público escreveu a legenda assim, em espanhol: “mate de alpaca o tal vez plata”.

Alpaca ou talvez prata. O dono da peça não sabia.

Não é vergonha nenhuma. Acontece o tempo todo com bainha, guarnição, virola, cabo e ponteira de faca — só que ali a conta é mais salgada, porque a diferença entre uma coisa e a outra costuma decidir o preço da negociação inteira.

Quatro materiais, um nome só

No balcão da feira, tudo o que é branco e brilha vira “prata”. São coisas bem diferentes.

Prata de lei. O número indica o teor: 925 significa 92,5% de prata e 950, 95%. Não são os únicos teores encontrados em objetos de prata. O resto quase sempre é cobre, que entra para dar dureza — prata pura é mole demais para virar peça de uso. O 925 é o que o mundo inteiro chama de sterling; o 950 é bem comum na joalheria brasileira e pega muita gente de surpresa.

Prata 900. Noventa por cento de prata. É um teor encontrado em moedas e em parte da prataria criolla, mas não em toda moeda nem em toda peça antiga.

Alpaca. Aqui não tem prata nenhuma. A liga não leva prata em sua composição nominal. É uma liga de cobre, níquel e zinco, em proporções que variam de 50% a 70% de cobre e de 13% a 25% de cada um dos outros dois. Recebeu um nome diferente em cada país que a fabricou: maillechort na França, Neusilber e Alpakka na Alemanha, nickel silver e German silver nos países de língua inglesa, argentán, metal blanco e alfénide por aí. A receita original nem é europeia — vem do paktong chinês, o “cobre branco”.

O plaquê. Metal-base revestido de prata; a base pode ser alpaca ou outra liga. O revestimento pode ser eletrolítico, conforme o processo de fabricação. É o material que mais confunde, porque a superfície é prata de verdade. Sua espessura varia conforme o processo e a qualidade do revestimento.

De onde vinha a prata das nossas peças

Esta é a parte que explica quase tudo.

Entre as fontes de metal do prateiro do Prata estavam as moedas fundidas. A prata boliviana que circulava pela fronteira foi a matéria-prima básica da prataria criolla durante todo o século XIX, e a moeda também entrava inteira na peça: a rastra, aquele cinturão largo do tirador, era montada com medalhão central, correntes e moedas de prata e ouro penduradas — que aumentavam ao mesmo tempo o peso e o valor de quem a usava.

Reverso de uma moeda de prata escurecida com o número 1 e a palavra PESO dentro de uma coroa de louros, a inscrição LIBRE Y CONSTITUIDA na borda e a data 1877 embaixo Um peso uruguaio de 1877: 25 gramas, 37 milímetros, prata 900. Era desta ordem de moeda que saía o metal das bainhas, rastras, estribos e cabos que hoje estão nas coleções.

O uso de moedas ajuda a explicar a presença de prata 900, mas não determina o teor de toda peça. As moedas tinham ligas diferentes; mistura de metais, soldas e reparos também alteram o conjunto. A marca 900 é compatível com prata de 90%, mas precisa ser interpretada junto da procedência e, quando necessário, de análise da composição.

A lógica vale para o outro lado também: já escrevemos aqui que a lâmina vinha da Europa e a prataria era feita daqui. A prata é a parte genuinamente nossa dessas facas.

O que está escrito na peça

Pegue uma lupa e procure nos lugares que ninguém olha: por dentro da boca da bainha, atrás da guarnição, embaixo do arremate, na parte do cabo que fica coberta.

O que pode aparecer:

Teor de prata — 925, 0.925, STERLING, PLATA 925, 950, 900, 0.900, 800. O 800 é padrão europeu continental (alemão, italiano, austríaco) e aparece em peça importada; nas listas de prateiros do Prata ele surge, por exemplo, acompanhando a marca CAMPERCHIOLI.

Alpaca — ALPACA, ALPACCA, ALP, METAL BLANCO, NICKEL SILVER, GERMAN SILVER, NS, ARGENTAN, MAILLECHORT, ALFENIDE.

Banho de prata — EPNS (electroplated nickel silver, ou seja: alpaca com banho), EP, EPGS, EPBM, EPWM. Essas siglas indicam revestimento eletrolítico, mas é preciso ler a marca completa e considerar possíveis falsificações.

Números soltos como 90, 100, 120 podem indicar classes de prateação ou quantidades de prata usadas em serviços de talheres. A convenção varia por fabricante e país: 90 não deve ser convertido automaticamente em prata 900. Nomes comerciais como ALFENIDE também exigem pesquisa; podem aparecer em objetos prateados, e não apenas em alpaca sem revestimento.

Punção do prateiro — iniciais ou sobrenome dentro de um contorno. No Prata, os nomes que os colecionadores caçam incluem Manuel Alais, Aquiles Pirovano, Cándido Silva, Gregorio Merlo, Pedro Ferreyra, J. Pérego, Cataldi, Yanicelli, Barcia, Delupi, Cozzolino, Podestá e Grossi, entre muitos outros.

Macro de um carimbo gravado no fundo de uma peça metálica manchada: a sigla ALP dentro de um losango, seguida do nome HOPEAKESKUS OY O carimbo ALP dentro do losango — alpaca. Ao lado, o nome do fabricante. Repare também no estado da superfície: manchada de bege e marrom, com o brilho já cansado. A aparência da pátina, sozinha, não identifica a liga.

Cabo de colher de tom amarelado marcado com o número 12 e as palavras NICKEL SILVER WEAR WHITE, ao lado de um selo oval com os dizeres MADE IN ENGLAND Aqui a marcação é honesta e está escrita por extenso: NICKEL SILVER. E olhe a cor — puxa para o amarelo, para o dourado. É a assinatura visual do cobre que existe dentro da liga.

Cuidado com a fé no carimbo

Carimbo é uma evidência, não uma prova. Punção se falsifica, e existe peça de alpaca com um belo 900 estampado por alguém mal-intencionado. Do outro lado, existe alpaca marcada com selos desenhados de propósito para imitar o formato dos contrastes oficiais de prata — losangos, escudos, cabecinhas — sem dizer letra nenhuma que seja mentira.

Aqui vale ver como é um contraste de verdade num país que sempre teve fiscalização séria:

Cinco carimbos alinhados numa superfície de prata: as letras PS, um leão andando, uma cabeça de leopardo, a letra u minúscula e o perfil de um rei Contraste inglês completo, de 1835. Da esquerda para a direita: as iniciais do prateiro, o leão passante (que atesta o teor sterling), a marca da cidade de Londres, a letra do ano e a cabeça do rei, que provava o pagamento do imposto. Cinco marcas, cinco informações diferentes.

Esses sistemas de contrastes não podem ser pressupostos para a prataria de campo. O que nos leva ao caso mais comum de todos.

Quando não tem marca nenhuma

Muitas peças antigas de campo não têm carimbo algum. O prateiro do interior não contrastava, não pagava imposto de ensaio e muitas vezes nem assinava. Isso significa que a ausência de marca não prova nada — nem contra, nem a favor.

Quem diz “não tem carimbo, então é alpaca” está chutando. E quem diz “não tem carimbo porque é antiga demais, é prata pura” está chutando também, só que para o lado que lhe convém.

Sem marca, você depende do olho e do teste.

Indícios que ajudam, mas não comprovam

Cor e pátina. Iluminação, sujeira e revestimentos confundem a observação. A prata pode formar sulfeto de prata escuro, mas a aparência não distingue com segurança prata maciça, metal prateado e alpaca.

Peso. A densidade pode ajudar quando volume e construção são conhecidos. Bainhas ocas, enchimentos, soldas e espessuras diferentes tornam enganosa a comparação apenas na mão.

Desgaste. Uma camada de outra cor aparecendo sob a superfície sugere revestimento. Não raspe a peça para procurar essa camada.

Ímã. A atração pode revelar material ferromagnético, mas ausência de atração não comprova prata. Prata e alpaca comum não respondem como ferro ao ímã.

O teste do gelo não autentica uma liga: massa, espessura e temperatura interferem no resultado. Água também pode alcançar madeira, couro, colas e partes internas de uma peça composta. Por isso, não é uma boa recomendação para antiguidades.

Quando recorrer a análise

Um profissional pode avaliar marcas, construção e composição. Ensaios com pedra de toque e reagentes retiram material e exigem interpretação; não são testes caseiros sem dano.

A fluorescência de raios X (XRF) pode analisar a superfície sem remover amostra, mas tem limitações em objetos revestidos. O operador precisa considerar banho, geometria e pontos de leitura. Disponibilidade e custo variam; nenhum desses métodos deve ser vendido como resposta infalível.

O que isso muda no preço — e o que não muda

Muda menos do que a maioria imagina.

Uma bainha de alpaca cinzelada por um prateiro excelente vale mais, e sempre valeu, do que uma peça de prata 900 batida sem capricho. O metal é insumo; o que se está comprando é o trabalho, a procedência e a integridade do conjunto. É a mesma conta que já discutimos ao abrir a estrutura de custo de uma faca artesanal.

Dois erros, no entanto, custam caro de verdade:

Derreter. Toda vez que a prata sobe de preço, aparece gente derretendo prataria criolla antiga para vender o metal por grama. Some uma peça que ninguém mais vai fazer, e entra no bolso uma fração do que ela valia inteira. É irreversível.

Polir. O impulso de deixar tudo espelhado destrói duas coisas ao mesmo tempo: a pátina, que é parte da datação e do valor, e o punção, que é raso e some depois de alguns polimentos entusiasmados. Peça antiga se limpa com pano seco e paciência. O resto é dano.

E na faca que você vai encomendar hoje

Vale dizer com todas as letras, porque o assunto costuma gerar torcida: alpaca não é falsificação. É um material legítimo, estável, que não enferruja, aceita bem cinzel e lima, e que o cuteleiro artesão usa com toda a razão em virola, guarnição e ponteira. Ela tem lugar próprio na bancada e sempre teve.

O problema nunca foi a alpaca. O problema é vender alpaca como prata.

Então pergunte. Na hora de encomendar, pergunte de que é a guarnição, de que é a virola, de que é o arremate da bainha, e se há banho em alguma parte. Cuteleiro sério responde na hora, sem rodeio e sem se ofender — a resposta faz parte do orçamento tanto quanto o aço da lâmina.

Se a composição continuar incerta, peça documentação ou avaliação profissional.


Procuram-se fotos de peças nossas

As imagens deste artigo mostram carimbos de alpaca, um contraste inglês e uma moeda. Falta o principal: punções em bainhas e guarnições do Prata. Ainda não identificamos material assim em domínio público, e o que circula está em anúncio de leilão, com direito autoral de quem fotografou.

Se você tem uma peça com o punção visível — um 900, um ALPACA, a assinatura de um prateiro — e topa que ela ilustre este texto, me escreva. Crédito garantido, e a peça entra para o registro.

Créditos das imagens

Fontes

A identificação visual é uma triagem, não um laudo de composição.

Correções são bem-vindas, e serão publicadas.

Referências da revalidação — 16/09/2026

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