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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa

A ferraria que virou Tramontina

Todo mundo conhece a Tramontina pela panela e pelo talher de churrasco. Poucos sabem que ela nasceu fazendo canivete — numa ferraria de beira de trem, com chifre de boi e faca importada resgatada de um incêndio.

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Locomotiva a vapor "Maria Fumaça" puxando vagões de madeira escura pela Serra Gaúcha, soltando fumaça preta contra um céu nublado, cercada de mato alto e vegetação.

Pergunte para qualquer gaúcho o que a Tramontina faz, e a resposta vem rápido: panela, talher, faca de churrasco, aquele canivete vermelho de multiuso. Pergunte com o que ela começou, e a resposta quase nunca aparece — porque a empresa que hoje despacha para mais de cem países começou como uma ferraria de beira de linha férrea, consertando arreio de cavalo, e o primeiro produto de sucesso dela foi um canivete de bolso.

O ferreiro que chegou com o trem

Valentin Tramontina nasceu em 1893 em Santa Bárbara, distrito de Bento Gonçalves, filho de imigrantes italianos vindos de Poffabro, no Friuli. Em 1911, com dezoito anos, ele se mudou para uma vila vizinha que tinha acabado de ganhar nome novo: Carlos Barbosa, batizada em 1910 em homenagem ao então presidente do estado do Rio Grande do Sul — o mesmo Carlos Barbosa Gonçalves que, no governo, tinha mandado construir a ferrovia Montenegro–Caxias do Sul. Foi exatamente essa ferrovia que levou Valentin para lá: onde passava trem, passava negócio.

Montou uma ferraria pequena, fazendo reparo para as indústrias da região e ferradura de cavalo. Serviu o quartel, voltou, e ampliou a oficina. Em 1920 casou com Elisa de Cecco; o casal teve três filhos.

Retrato de estúdio em preto e branco de um homem jovem, de terno escuro e gravata, cabelo curto penteado para trás, olhando sério para a câmera Valentin Tramontina. Chegou a Carlos Barbosa em 1911 com dezoito anos e uma ferraria de fundo de quintal — a mesma origem que este espaço já contou para outras marcas gaúchas, que cresceria até se tornar um grande grupo industrial.

O canivete Santa Bárbara

A virada veio depois que Valentin viu um canivete italiano e resolveu fazer o dele. Em 1930 lançou o modelo que batizou de Santa Bárbara — o nome do distrito onde nasceu — e ele virou, disparado, o produto mais vendido da oficina. Não era sofisticado: cabo de chifre, lâmina simples, feito para o bolso de quem trabalhava.

É a mesma história que este blog já contou sobre a origem da faca gaúcha: a lâmina daqui nasce olhando para um modelo de fora e refazendo com o que tem na mão. Só que aqui o “de fora” não foi Flandres nem Albacete — foi uma vitrine de canivete italiano numa colônia da Serra, e o “refazer com o que tem na mão” virou, décadas depois, dez fábricas.

O incêndio que ensinou o ofício

Em 1932 aconteceu o episódio que qualquer roteirista descartaria por inverossímil: um incêndio destruiu um armazém importador em Porto Alegre, e entre o estrago ficou um lote de facas importadas, avariadas mas ainda inteiras o bastante para servir de modelo. A ferraria de Carlos Barbosa assumiu o trabalho de recuperar essas peças — e, ao desmontar e remontar facas de fora, aprendeu a fazer as próprias, com cabo de chifre de boi, no molde do que via.

Foi uma oportunidade de aprender com o reparo: pegar sucata alheia e sair sabendo um ofício novo. O mesmo instinto que este espaço já registrou como assinatura da cutelaria gaúcha inteira — nascida, segundo o artigo da origem, “de sucata” mais vezes do que a lenda romântica costuma admitir.

A viúva que segurou a firma

Valentin morreu em 28 de fevereiro de 1939, aos 45 anos, depois de cerca de 28 anos à frente do negócio. Elisa Tramontina assumiu a ferraria com dois filhos pequenos e, segundo quem contou essa história depois, foi ela quem levou os produtos para o mercado regional e para a capital, sustentando a empresa durante os anos difíceis da Segunda Guerra.

Não é a primeira vez que essa figura aparece por aqui: a Broqua & Scholberg, a casa que também vendia faca vinda de fábrica própria na Europa, foi tocada do lado belga por outra viúva, a de Scholberg, em Liège, em outro período da história da cutelaria. Duas mulheres, dois continentes, o mesmo ofício de manter aceso o que o marido tinha começado.

O economista de vinte anos e a virada industrial

Em 1949 um estudante de economia de Porto Alegre com vinte anos, Ruy José Scomazzon, começou a prestar consultoria para a empresa — e reorganizou a produção de artesanal para manufatura de verdade. Na década seguinte a oficina chegou a trinta funcionários, com representantes comissionados espalhados pelo estado, e o canivete respondia por 90% do faturamento.

Segundo o relatório institucional de sustentabilidade de 2021, a transformação em sociedade anônima ocorreu em 1959; 1961 foi o ano de abertura da Forjasul. Na sequência vieram as unidades de Garibaldi, em 1964, e Farroupilha, em 1969. Essa cronologia corrige a confusão entre a mudança societária e a nova unidade industrial.

Canivete dobrável Tramontina moderno, cabo de aço inox com inserções em borracha preta, lâmina serrilhada parcial gravada com o nome da marca, sobre uma superfície de madeira clara Um canivete Tramontina de fabricação atual — já bem distante do cabo de chifre de 1930, mas descendente direto dele. A faca nunca saiu do catálogo; só deixou de ser 90% dele.

A faca que sobrou dentro do império

Hoje a Tramontina soma dez unidades industriais, cerca de dezoito mil itens no catálogo e exportação para mais de cem países. É líder nacional em panela, talher e utilidade doméstica — e continua fabricando faca, com linhas próprias como a Tropeira (forjada, cabo em material natural, vendida explicitamente para quem se identifica com o desbravador), a Century, a série especial Damaski em aço damasco, e os kits de churrasco que estão em praticamente toda cozinha gaúcha.

A diferença é de escala, não de linhagem: a mesma ferraria que remendava ferradura de cavalo em 1911 é, hoje, um dos maiores fabricantes de faca do mundo — só que a faca deixou de ser o produto principal para virar uma linha entre milhares. Continua lá, forjada, com nome próprio, porque foi por ela que a empresa inteira começou.


Créditos das imagens

Fontes

A Tramontina é empresa ativa, e boa parte do que se sabe sobre a fase de fundação vem de material institucional e de blogs de empreendedorismo que recontam a mesma história — não de arquivo aberto ao público. Datas e números batem entre as fontes consultadas; documentação primária (jornal de época, registro da ferraria original) é bem-vinda e será incorporada.

Referências da revalidação — 16/09/2026

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