Uruguaiana — RS
Maurício Dalcin
M. Dalcin Cutelaria
Maurício Dalcin faz facas em Uruguaiana desde 2018 — fisioterapeuta de dia, forja e martelo à noite, sem prensa hidráulica. Faz tudo sozinho, do forjamento à bainha, e diz que a peça mais difícil é sempre a próxima.
- Gaúcha tradicional
- Churrasco
- Cozinha
- Caça e pesca
- Canivete
- Cutelo
- Campeira
Como começou
Maurício é fisioterapeuta em Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. A cutelaria entrou pela outra metade da vida dele:
Sempre gostei da vida no campo, das pescarias, da caça e de tudo o que envolve esse estilo de vida. Quando decidi comprar uma boa faca, percebi que não encontrava exatamente aquilo que procurava. Foi então que decidi fazer a minha própria faca.
O que começou como uma necessidade acabou se tornando uma paixão.
Isso foi em 2018. Quem deu o primeiro empurrão foi um tio engenheiro mecânico, que já entendia de tratamento térmico:
Com essa orientação inicial, consegui concluir minha primeira peça. A partir daí, a curiosidade e a vontade de aprender só aumentaram. Comecei a buscar vídeo aulas, livros e materiais sobre metalurgia, buscando compreender melhor o comportamento do aço, seus tratamentos e todos os fatores envolvidos na transformação de um simples pedaço de metal em uma faca.
Depois veio curso, e vieram professores: Luciano Dorneles e Daniel Jobim. Ele cita ainda Ricardo Vilar — cuja demonstração com um machado foi o primeiro contato dele com o meio —, Rodrigo Sfredo e Dionatam Franco, que o ajudou na primeira mostra de cutelaria.
A oficina
Puxadinho — foi a caixa que ele marcou, e é a resposta mais literal que o formulário permite. A oficina tem forja e martelo, e não tem prensa hidráulica:
Até hoje trabalho com forja e martelo, pois ainda não adquiri uma prensa hidráulica.
Isso é dito a respeito de damasco, que é justamente onde a falta de prensa mais pesa. A história do primeiro damasco dele é a melhor da entrevista:
Naquela época, estava no telefone, pelo WhatsApp, com meu professor, que me orientava à distância durante todo o processo. Foi um momento único, cheio de aprendizado, expectativa e, claro, alguns erros pelo caminho. No final, consegui concluir a peça, e até hoje ela está guardada comigo como uma lembrança do início dessa jornada com o Damasco.
O método
A têmpera é ele que faz — como todo o resto:
Cada peça é 100% construída por mim, do forjamento à confecção da bainha. Cada etapa passa pelas minhas mãos, com atenção aos detalhes e o cuidado necessário para entregar algo genuíno, funcional e com identidade própria.
Os aços são 5160, 52100 e damasco, com preferência declarada por um deles:
Nos últimos tempos, tenho dado preferência ao aço 52100 para minhas lâminas em aço carbono. É um material que, além de oferecer excelente desempenho, me permite alcançar um acabamento que considero especialmente bonito e refinado, com ótima finalização no acetinado e excelente retenção de fio.
Nos cabos ele marcou madeira, alpaca, chifre e micarta, e acrescentou por escrito: canela de avestruz, girafa, baleia e mamute.
O prazo depende do tamanho do projeto — e do fato de a cutelaria dividir espaço com a fisioterapia:
Como tenho um trabalho paralelo à cutelaria, uma peça simples leva em média duas semanas, enquanto projetos mais elaborados podem chegar a meses, como foi o caso da última peça que levou 3 meses.
Aceita encomenda, e sabe qual é o pedido que mais se repete:
As peças que mais pedem a mim são as voltadas ao churrasco, principalmente facas que unem funcionalidade, resistência e um bom acabamento.
Vende para fora do país — o que, de Uruguaiana, é menos exótico do que parece: a Argentina começa do outro lado da ponte.
A peça que define a casa
Não tem — e a resposta a essa pergunta é a parte mais interessante do questionário dele:
Meu trabalho está em constante evolução. Ainda não tenho uma peça que possa ser considerada definitiva ou que represente plenamente tudo aquilo que busco expressar na cutelaria. Cada novo projeto é uma oportunidade de aprimorar minhas linhas, propor novas formas e desenvolver uma identidade própria.
Mais do que produzir uma faca, meu objetivo é desenvolver um trabalho que carregue identidade, personalidade e autenticidade. Sei que o reconhecimento é consequência de um caminho longo de dedicação e aperfeiçoamento, e é justamente esse caminho que estou construindo.
Perguntado sobre a mais difícil e a de mais orgulho, ele responde na mesma chave: a mais difícil é sempre a próxima, e a de mais orgulho é a primeira — feita com um pedaço de aço carbono e uma esmerilhadeira.
A NĀLU
Ao responder o questionário, em agosto, ele disse não ter ainda uma peça que o representasse por inteiro. Semanas depois mandou duas — cada uma com nome próprio e um texto escrito por ele para apresentá-la. São as duas que aparecem na seção de peças, mais abaixo.
NĀLU
Em havaiano, NĀLU representa a onda e o movimento do oceano.
Nascida da dança entre fogo, aço e água, a NĀLU traduz em sua forma o movimento, a precisão e a força silenciosa do mar. Sua silhueta acompanha o fluxo de uma onda, enquanto seu fio revela a precisão de sua crista.
Forjada integralmente em aço carbono 52100, possui 24 cm de lâmina, 39 cm de comprimento total e 5 mm de espessura no dorso. Seu cabo em ébano indiano completa a peça, unindo a força do aço à nobreza da madeira.
A NĀLU não representa a violência do oceano, mas seu equilíbrio: força e delicadeza, movimento e precisão, beleza e propósito.
A FRONTIER
FRONTIER
Há lugares onde o mapa termina e o caráter é colocado à prova. Foi dessa essência que nasceu a Frontier.
Inspirada nas facas dos pioneiros que desbravaram novos horizontes, une tradição, força e elegância em uma interpretação contemporânea. Sua lâmina em aço carbono 52100, com 21 cm de comprimento e 4 mm de espessura no dorso, é acompanhada por guarda em aço carbono 1020, ferrule em chifre de cervo e cabo em chifre de merino, cada peça com padrões naturais únicos.
Mais que uma faca, a Frontier representa o espírito de quem honra suas raízes, enfrenta o desconhecido e abre o próprio caminho.
Frontier, o espírito da fronteira nunca desaparece. Apenas muda de mãos.
Nas palavras dele
Talvez, um dia, alguma dessas peças seja reconhecida não apenas pela qualidade, mas pela assinatura de quem a criou. Até lá, sigo aprendendo, experimentando e buscando fazer cada peça melhor que a anterior.
A oficina e as peças
Reconhecimento entre colegas. És cuteleiro ou afiador com página no portal e conheces o trabalho de Maurício?
Reconhecer o trabalho dele