440C, 1095, 5160, N690: o que os números e as letras do aço querem dizer
Todo mundo repete o nome do aço; quase ninguém sabe ler. O 95 do 1095 é carbono, o C do 440C identifica um grau, e o 6 do 100Cr6 vale 1,5%. Um guia para decifrar a ficha técnica — e para entender o que "aço de mola" quer dizer quando não vem com número.
- Aços
- Técnica
- Identificação

“É 440C.” Quem diz isso numa feira de facas quer dizer “é bom”, e quem ouve entende “é bom”. Mas pergunte o que o 440 significa, e por que tem um C no fim, e a conversa acaba. O nome do aço é a especificação mais citada e menos lida da cutelaria.
A boa notícia é que a maioria desses nomes tem lógica. Não é código secreto: é um sistema de classificação, e dá para aprender a ler. A má notícia é que não é um sistema — são uns cinco, de países diferentes, que convivem na mesma ficha técnica. Este artigo é para destrinchar cada um.
Uma torre de Babel com cinco idiomas
O aço de faca é classificado, basicamente, de cinco jeitos:
- Numeração americana (SAE/AISI), geralmente de quatro dígitos para aço carbono e ligado — 1095, 5160, 52100 — e de três dígitos para inoxidável — 420, 440C.
- Letras americanas para aço-ferramenta — D2, O1, A2, W1, M2.
- Nomenclatura alemã (DIN/EN), em duas versões: o número de material, tipo 1.4116, e o nome simbólico, tipo X50CrMoV15.
- Nomes de fábrica — Sandvik 12C27, Böhler N690, Uddeholm Elmax, Crucible S30V.
- Nomes japoneses — VG-10, Aogami, Shirogami.
No Brasil, a norma ABNT adotou a numeração SAE. Por isso o que a distribuidora de aço vende aqui se chama 1045, 1095, 5160: é o sistema americano com selo brasileiro. Vamos começar por ele.
Uma laminação americana em 1919. A numeração SAE nasceu nessa época, quando a indústria
automobilística precisou de um jeito de pedir aço pelo nome em vez de por descrição.
O sistema de quatro dígitos: o aço carbono
A Society of Automotive Engineers criou a numeração nos anos 1910 para a indústria de automóveis, e ela é de uma simplicidade bonita. Os dois primeiros dígitos dizem a família; os dois últimos dizem o carbono, em centésimos de por cento.
- 10xx é aço carbono simples, sem liga digna de nota. O 1095 tem cerca de 0,95% de carbono. O 1084 tem cerca de 0,84%. O 1045 tem 0,45% — pode endurecer por têmpera, mas costuma oferecer menor potencial de dureza e resistência ao desgaste que os aços de maior carbono usados em cutelaria. Não existe um limite universal de 0,6% abaixo do qual nenhuma faca funcione.
- 5xxx é a família do cromo. O 5160 tem 0,60% de carbono e uns 0,8% de cromo. Esse é o aço de mola — literalmente: é o que vai nos feixes de mola de caminhão. Tem menos carbono que o 1095, então endurece menos, mas em troca é tenaz como poucos — dobra, não quebra. É o clássico da faca gaúcha de fundo de quintal por uma razão que vem no fim.
Feixes de mola num ferro-velho. Se isto vier de um caminhão de fábrica, quase certamente é
5160 ou um primo próximo. Se vier de uma carroça, ninguém sabe.
- Tem um de cinco dígitos que aparece muito: 52100. A regra é a mesma, só que o carbono vem com três casas: 1,00% de carbono, e uns 1,5% de cromo. É o aço de rolamento — o das esferas e pistas, que precisam de dureza e resistência ao desgaste acima de tudo. Na faca, dá um fio que dura e uma têmpera que não perdoa erro.
Um rolamento SKF dos anos 1950. Esferas e pistas são de 52100 há um século — o aço foi
desenhado para isso, e o cuteleiro o pegou emprestado.
O 8670 também pertence à família SAE e tem teor nominal de carbono próximo de 0,70%. Já 15N20 é uma designação comercial de aço ao níquel: contém aproximadamente 0,75% de carbono e 2% de níquel. O “20” não significa 0,20% de carbono. Não se deve aplicar a regra SAE a nomes de outro sistema.
O sistema de três dígitos: o inox, e o que o C quer dizer
O inoxidável usa outra tabela do AISI, de três dígitos. A série 400 inclui inoxidáveis martensíticos e ferríticos; nem todo aço da série 400 endurece por têmpera. Os graus martensíticos são os mais comuns em lâminas inoxidáveis. (O 304 da panela e o 316 do relógio são da série 300, austeníticos, e não endurecem pelo mesmo ciclo de têmpera dos martensíticos. Por isso faca “de inox 304” não existe a sério.)
Dentro da série 400, dois nomes dominam a cutelaria:
- 420: 12 a 14% de cromo e pouco carbono, de 0,15% a uns 0,40%. É o inox barato da faca de cozinha de supermercado. Não é mau; é mole. Afia fácil, perde o fio rápido.
- 440: 16 a 18% de cromo e carbono alto. E aqui entra a letra. A, B e C são graus diferentes, com faixas de carbono crescentes:
| Nome | Carbono | Na prática |
|---|---|---|
| 440A | 0,60 a 0,75% | o mais resistente à ferrugem, o mais mole |
| 440B | 0,75 a 0,95% | meio-termo; raro em faca |
| 440C | 0,95 a 1,20% | o mais duro, o de fio mais durável |
Então “440C” se lê assim: série 400 (inox que tempera), tipo 440 (cromo alto), grau C (o máximo de carbono da família). Por isso ele virou sinônimo de “inox bom” nos anos 1980 — tornou-se uma referência entre os inoxidáveis de alto carbono para cutelaria.
Duas armadilhas. A primeira: “440” sem letra não quer dizer 440C. Sem a especificação completa, não é possível concluir qual grau foi empregado. A segunda: 420 e 440C não são parentes próximos, por mais que os números pareçam vizinhos. A diferença de carbono entre eles é de três a quatro vezes.
As letras do aço-ferramenta
O aço-ferramenta — feito para punção, matriz, serra, broca — usa um sistema de letras, e a letra diz como ele endurece ou para que serve, não a composição:
- W (water): tempera em água. O W1 é quase só ferro e 1% de carbono — na prática, um 1095 com pedigree. É o aço de lima.
- O (oil): tempera em óleo. O O1 tem 0,9% de carbono e um pouco de manganês, cromo e tungstênio, que deixam a têmpera mais fácil de acertar. Muito usado por quem forja em casa, porque é tolerante.
- A (air): endurece ao ar. O A2 tem 1% de carbono e 5% de cromo — pode ter boa estabilidade dimensional, mas ainda pode empenar na têmpera.
- D (die, matriz): alto carbono e alto cromo para trabalho a frio. O D2 tem 1,5% de carbono e 12% de cromo. O cromo é tanto que ele é chamado de “semi-inox”: não enferruja fácil, mas parte expressiva do cromo fica em carbonetos, reduzindo o cromo disponível na matriz para proteção contra corrosão. “13% livres” não é a definição normativa de inox. Fio durável, difícil de afiar.
- M (molibdênio): aço rápido, o das brocas e fresas. O M2 mantém dureza mesmo quente. Aparece pouco em faca.
O número depois da letra identifica o grau: o 2 de D2 não informa teor de elemento nem deve ser interpretado como ordem cronológica de criação.
Lima é aço-ferramenta de carbono alto, na faixa do W1. Por isso “faca de lima” é quase
sempre uma faca de bom aço — a lima velha foi feita para cortar aço, afinal.
O jeito alemão: o número que dá para ler
A Alemanha tem dois nomes para cada aço, e os dois aparecem em ficha de faca europeia.
O primeiro é o número de material (Werkstoffnummer), sempre no formato 1.xxxx. O 1 quer dizer “aço”; o dígito seguinte diz a família: 1.4xxx é inoxidável, 1.2xxx é aço-ferramenta, 1.0xxx e 1.1xxx são aço carbono. O resto é número de catálogo. Assim, 1.4116 é um inox utilizado em diversas facas de cozinha europeias, sem ser o único, 1.2379 é o equivalente do D2, e 1.4125 é o 440C.
O segundo é o nome simbólico, e esse é o mais legível de todos os sistemas. Tem três formas:
- Aço carbono simples: a letra C e o carbono em centésimos. C45 é 0,45% de carbono — o nosso 1045. C100 seria 1%.
- Baixa liga: carbono em centésimos, depois os elementos e um número para cada. Só que esse número vem multiplicado por um fator — 4 para cromo, manganês, níquel e silício; 10 para molibdênio e vanádio. O 100Cr6 é 1,00% de carbono e 6 ÷ 4 = 1,5% de cromo. Reconheceu? É o 52100, o aço de rolamento, em alemão.
- Alta liga: começa com X, e aí os teores vêm sem fator, diretos. X46Cr13 é 0,46% de carbono e 13% de cromo — um 420 de carbono alto. X50CrMoV15 (o 1.4116) é 0,50% de carbono, 15% de cromo, mais molibdênio e vanádio em quantidade pequena, que o nome não detalha. X105CrMo17 é o 440C: 1,05% de carbono, 17% de cromo, um pouco de molibdênio.
Uma esfera de X46Cr13, o mesmo que 1.4034. O nome diz tudo o que importa: 0,46% de carbono,
13% de cromo. É o sistema mais honesto que existe — e o menos usado em faca brasileira.
Nomes de fábrica: quando o número não quer dizer nada
A partir daqui, a lógica vai embora. Os aços modernos de faca são, quase todos, produtos de uma siderúrgica específica, e o nome é o que o departamento comercial escolheu.
- Alleima 12C27 e 14C28N, historicamente comercializados como Sandvik (Suécia): os números são código interno e não correspondem a teor nenhum. O que dá para ler é o N do 14C28N, que é nitrogênio — um truque para ganhar dureza sem perder resistência à corrosão. O 12C27 é o aço dos Mora e de meia Escandinávia.
- Böhler N690 (Áustria): o N é a linha de inoxidáveis da Böhler; 690 é catálogo. Por dentro, é um 440C com cobalto — e o cobalto é o que o deixa um pouco mais duro e mais fácil de tratar. Virou padrão de faca tática europeia.
- Uddeholm Elmax e Sleipner (Suécia): nomes de marketing, nórdicos de propósito. Elmax é inox de metalurgia do pó; Sleipner é um D2 melhorado.
- Crucible CPM S30V, S35VN, S90V, MagnaCut (EUA): aqui tem um pouco de lógica. CPM é Crucible Particle Metallurgy — metalurgia do pó, o processo que mistura os elementos tão fino que o aço fica homogêneo de um jeito que a fundição tradicional não consegue. S é stainless. V é vanádio, N é nióbio. O número é série, não teor. Já o MagnaCut não diz nada — é nome de produto, como um modelo de carro.
- 154CM (Crucible): tem aproximadamente 1,05% de carbono, 14% de cromo e 4% de molibdênio. O nome é uma designação de produto, não uma sequência que permita ler esses três teores diretamente. CPM 154 é a versão de composição semelhante produzida por metalurgia do pó.
O que une todos: o nome não te diz a composição. A ficha técnica diz. Para esses, é ela que vale, e toda siderúrgica publica a sua.
Os japoneses: a cor do papel
O Japão tem dois sistemas, e os dois são charmosos.
O primeiro reúne designações comerciais da Takefu Special Steel, como VG-10, da linha V Gold. Sua ficha informa aproximadamente 1% de carbono, 15% de cromo, molibdênio, vanádio e cobalto. Não é seguro decifrar cada letra como um elemento. O VG-XEOS da foto é outro produto da fabricante, não uma substituição universal do VG-10.
O segundo é da Proterial, antigo nome empresarial Hitachi Metals, e o nome é, literalmente, a cor do papel em que a barra vem embrulhada na fábrica de Yasuki:
- Shirogami (“papel branco”): aço carbono de alta pureza e baixos teores de outros elementos. O Shirogami 1 tem ~1,3% de carbono; o Shirogami 2, ~1,1%. O número é inverso ao carbono.
- Aogami (“papel azul”): o mesmo aço com tungstênio e um pouco de cromo — segura fio mais tempo, é um pouco mais tolerante. Aogami Super é o topo da linha.
- Kigami (“papel amarelo”): o mais simples, para faca de uso.
É o único sistema do mundo em que a classificação é uma etiqueta colorida. E funciona há cem anos.
“Aço de mola”: o nome que não tem número
E o cuteleiro de fundo de quintal, o que ele usa?
Ele diz aço de mola, aço de lima, aço de rolamento, aço de serra. E esses nomes não são ignorância — são a classificação por origem, que é a única possível quando o aço chega como sucata. A mola de caminhão é 5160 provavelmente; a lima velha é W1 provavelmente; o rolamento é 52100 quase certamente; a serra de fita de serraria é 15N20 ou um L6 às vezes.
O “provavelmente” é o ponto. Sucata não vem com certificado. Um cuteleiro que compra barra nova de 5160 de distribuidora sabe o que tem na mão e acerta a têmpera de primeira. Um que forja mola de caminhão sabe o que tem na maioria das vezes, e compensa a incerteza com experiência: testa a faísca no esmeril, tempera uma ponta, quebra e olha o grão. É mais trabalho, e é parte do que torna a peça dele dele.
Por isso, quando alguém te disser “é aço de mola”, a pergunta certa não é “mas qual é o número?”. É “de onde veio a mola?”. Quem responde na hora sabe o que está fazendo.
Para levar no bolso
- Quatro dígitos (1095, 5160): os dois últimos são o carbono em centésimos. 52100 é a exceção de cinco dígitos — 1,00% de carbono.
- Três dígitos com letra (440C): inox; a letra é o grau de carbono. C é o mais alto. “440” sem letra é um aviso.
- Uma letra e um número (D2, O1): aço-ferramenta; a letra diz como tempera, o número é posição na lista.
- 1.xxxx: número europeu de material; consulte o grupo e a ficha correspondente. X + números: a composição escrita por extenso.
- Nome de marca (N690, S30V, Elmax): abra a ficha técnica. O nome não diz.
- Cor de papel (Shirogami, Aogami): aço carbono japonês; branco é puro, azul tem liga.
E uma coisa que nenhum nome diz: o tratamento térmico. O 1095 com 0,95% de carbono só vira boa faca se alguém o temperou e reveniu direito. O número descreve o potencial; o cuteleiro decide o que vira.
Créditos das imagens
Imagens do Wikimedia Commons, redimensionadas (a dos feixes de mola foi recortada):
- Yū Kurosaki New Gekko VG-XEOS Bunka 170 mm — Frank Schulenburg, CC BY-SA 4.0
- Roughing mill, Trumbull Steel, 1919 — revista The Iron Age, domínio público
- Leaf springs in a scrap yard — Spielvogel, CC0
- 1950s ball bearing 129 HA by SKF — R. Henrik Nilsson, CC BY 4.0
- Flat files: smooth, 2nd cut, bastard — Glenn McKechnie, CC BY-SA 3.0
- Stainless steel 1.4034 X46Cr13 bearing ball — Lucasbosch, CC BY-SA 3.0
Fontes
- SAE steel grades — Wikipedia
- Tool steel — Wikipedia
- Designação de aços pela EN 10027 — Wikipedia (em inglês)
- Knife Steel Nerds — Larrin Thomas (a melhor referência aberta sobre composição e tratamento térmico de aços de faca)
- Fichas técnicas dos fabricantes: Böhler N690, Crucible CPM, Sandvik/Alleima, Takefu Special Steel
As faixas de composição são as das normas e fichas; pequenas variações entre fornecedores são normais. Se você tem uma ficha que contradiz algum número daqui, me escreva.
Referências da revalidação — 16/09/2026
- Takefu — composição do VG-10
- Larrin Thomas — 15N20, 8670 e L6
- Larrin Thomas — desenvolvimento do 154CM