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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa

Legacy of Steel: a bíblia da cutelaria brasileira

Um livro de grande formato que botou o cuteleiro de fundo de quintal na estante: o Legacy of Steel (Legado de Aço) reuniu 365 profissionais do Brasil e da América Latina num volume bilíngue que virou referência — e artigo de caçada entre colecionadores.

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Exemplar do livro Legacy of Steel sobre uma mesa de madeira: capa preta com o título em letras prateadas e cinco facas artesanais fotografadas na vertical, com cabos de marfim, cristal e madeira e lâminas em aço damasco.

Existe um livro que, num círculo de cuteleiros brasileiros, dispensa o título: é “o livro”. Quem apareceu nele conta com orgulho; quem não apareceu, quer aparecer na próxima. E quem tenta comprar um exemplar hoje descobre que a caçada é digna das facas que ele retrata.

O nome completo é Legacy of Steel (Legado de Aço), organizado por Michel Guendler Gruenberg com Leandro Pazini e publicado pela Pan Graphic em 2022, depois de uma pré-venda que mobilizou o meio cuteleiro desde 2021.

Um tijolo bilíngue

Os números do projeto explicam o apelido de “bíblia da cutelaria brasileira” que a imprensa da época usou sem cerimônia:

  • 365 profissionais aprovados, do Brasil e de vizinhos — a lista oficial, publicada pelo Clube da Cutelaria, inclui uruguaios no meio da nossa gente;
  • colaboração de mais de 370 pessoas somando fabricantes, gravadores, comerciantes e colecionadores;
  • mais de 40 modelos de faca documentados;
  • centenas de páginas em formato grandão de mesa (as descrições da época falam em 35 × 25 cm e seis quilos de livro; o número de páginas varia conforme a fonte, entre cerca de 750 e as 856 que os anúncios de sebo registram);
  • texto bilíngue, português e inglês — feito desde o berço para atravessar a fronteira.

As matérias de lançamento usaram superlativos; eles são linguagem promocional, não um ranking bibliográfico independente.

Como se entrava no livro

O que faz o Legacy of Steel interessar a este site não é o tamanho — é o critério. O livro não foi um catálogo pago nem uma antologia de meia dúzia de nomes consagrados: os cuteleiros mandavam fotos do próprio trabalho e passavam por seleção. A lista de aprovados saiu publicada, os selecionados ganharam um selo de “aprovado no livro” para mostrar nas redes, e o selo virou credencial — até hoje se vê cuteleiro citando a presença no livro como quem cita um prêmio.

E entre os aprovados não estão só os nomes de feira grande. Está o cuteleiro de cidade pequena, de galpão nos fundos, exatamente o perfil que o Lâmina Gaúcha existe para registrar. Um exemplo da nossa vizinhança: Carlos Augusto Dummer, de Santa Cruz do Sul, que aprendeu o ofício vendo o pai forjar por hobby, se aperfeiçoou com o mestre cuteleiro Ismael Biegelmeier, de Feliz, e soube pelo professor que seu trabalho tinha entrado no livro. “Me senti muito feliz e realizado”, resumiu ele ao jornal da região — e essa frase podia ser a epígrafe do volume inteiro.

Por que ele importa

Prancha pedagógica colorida de 1847 mostrando o interior de uma oficina de cuteleiro, com aprendizes na roda de afiar e na bancada, emoldurada por canivetes, tesouras e uma espada de copos dourados “Le coutelier / Der Messerschmied”, prancha pedagógica francesa de 1847: o ofício do cuteleiro retratado para instruir. É o que o Legacy of Steel faz com os nossos, 175 anos depois — e a distância entre as duas imagens mede o quanto o ofício cresceu.

O Legado de Aço fez pela cutelaria artesanal brasileira o que os catálogos de Solingen fizeram pela industrial no século XIX: deu registro, nome e cara a uma produção que até então circulava dispersa em feiras, grupos de WhatsApp e páginas de Instagram. Virou inventário de uma geração — quem forjava o quê, onde, e em que nível técnico — num momento em que a cutelaria brasileira vivia sua maior expansão.

Para o colecionador, é ferramenta de pesquisa: um panorama de estilos e assinaturas para cotejar peça com autor. Para o cuteleiro, foi vitrine e régua — ver o próprio trabalho impresso ao lado dos melhores do país obriga a subir o sarrafo. E para quem escreve sobre facas, como nós, é fonte primária da cena contemporânea, do jeito que Dagas de Plata do Abel Domenech é para a faca criolla antiga — a história dessa linhagem contamos aqui.

Onde encontrar (boa sorte)

A disponibilidade varia. A pré-venda concentrou parte da tiragem, e exemplares aparecem em leilões, sebos e grupos de cutelaria. Preço e estoque são informações do momento; consulte o vendedor antes de comprar.


Você tem o livro? Mostra pra nós

A foto da capa que ilustra este artigo é pequena — merecia melhor. Se você tem o Legacy of Steel na estante e topa fotografar o seu exemplar em boa resolução (capa, lombada, uma página aberta), me escreva — crédito garantido, e a foto entra aqui.

E se você é cuteleiro aprovado no livro — de qualquer canto do Brasil —, queremos contar a tua história: o cadastro do site está aberto.

Créditos das imagens

  • Capa do livro Legacy of Steel, de Michel Guendler Gruenberg e Leandro Pazini — reprodução para fins de resenha
  • Le coutelier / Der Messerschmied, prancha pedagógica de Jean Frédéric Wentzel, 1847 — domínio público

Fontes

As especificações do livro variam um pouco entre as fontes (número de páginas, contagem de participantes entre 350 e 370). Registrei as versões e de onde vem cada uma; quem tiver o exemplar em mãos pode bater o martelo — e será citado.

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