Bob Kramer: o cozinheiro que virou ferreiro
Ele começou vendendo faca de chef por 150 dólares. Hoje suas peças passam de 30 mil em leilão, e uma delas foi arrematada por 231 mil. A história do homem que tratou a faca de cozinha como obra de arte — e a decisão que divide opiniões.
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Em outubro de 2019, uma faca de cozinha foi a leilão e arrematou 231.250 dólares.
Não era peça de museu nem relíquia de guerra. Era uma faca de chef, feita em aço damasco, forjada por um americano de Bellingham para o cozinheiro Anthony Bourdain. Depois da morte dele, ela foi a leilão — e virou, possivelmente, a faca de cozinha mais cara já vendida.
Quem a fez tinha começado, vinte e poucos anos antes, vendendo faca de chef por 150 dólares.
O cozinheiro que virou ferreiro
Bob Kramer nasceu no fim dos anos 1950 e não veio da forja. Estudava oceanografia na Universidade de Washington e trabalhava como cozinheiro no Four Seasons Olympic Hotel, em Seattle.
Foi da cozinha que veio o incômodo: as facas nunca cortavam como ele queria.
Na autobiografia publicada em seu site, Kramer situa em 1994 a passagem da afiação para a fabricação de facas, depois de estudar na escola da American Bladesmith Society. Em 1997, recebeu a certificação de Master Smith da ABS.
O que ele fez de diferente
Aqui está o detalhe que explica tudo: Kramer foi o primeiro Master Bladesmith a se especializar em faca de cozinha.
Pode não parecer grande coisa, mas é. O mundo da cutelaria de alto nível era — e em boa medida ainda é — o das facas de caça, dos bowies, dos punhais de coleção, das peças de vitrine. Objetos que se admiram.
Kramer apontou a técnica mais refinada da profissão para o objeto mais banal da casa: a faca com que se pica cebola. Levou aço 52100, damasco e têmpera de mestre para uma coisa que o mundo tratava como utensílio de supermercado.
E fez isso porque tinha sido cozinheiro. Ele sabia, com as mãos, o que faltava.
A curva que muda tudo em 2008
A trajetória de preço das facas dele conta uma história sozinha:
| Ano | Faca de chef de 8 polegadas |
|---|---|
| 1995 | US$ 150 |
| 2000 | US$ 125 a 225 |
| 2008 | US$ 475 |
| 2015 | US$ 30.000 em leilão |
O que aconteceu entre 2008 e 2015?
Em 2008 a revista Cook’s Illustrated avaliou a faca dele e escreveu que ela havia superado todas as facas já testadas pela publicação. A demanda explodiu. Kramer passou a vender por lista de espera e, depois, por leilões. Na consulta de setembro de 2026, seu site também oferecia peças a preço fixo; a lista de encomendas personalizadas estava fechada.
A avaliação ajudou a ampliar uma reputação que já vinha de antes: o próprio Kramer atribui a uma reportagem da Saveur, publicada em março de 1998, o início de uma longa fila de encomendas. Não foi um sucesso que começou do zero em 2008.
A decisão que divide opiniões
Em algum momento, Kramer fez uma escolha que boa parte do meio artesanal considera heresia: licenciou o nome para a indústria.
As facas Kramer by Zwilling são projetadas por ele e fabricadas pela Zwilling J.A. Henckels — que é, justamente, uma das casas históricas de Solingen, a cidade alemã das lâminas. Custam algumas centenas de dólares em vez de dezenas de milhares, e estão em cozinha de gente comum no mundo inteiro.
A linha de fábrica: projeto dele, produção da Zwilling, em Seki, no Japão. Damasco de verdade,
mas industrial — e ao alcance de quem cozinha todo dia.
A crítica é previsível: vender o nome é diluir o ofício.
A defesa dele é mais interessante. Ele não parou de forjar. Continua fazendo peças únicas na oficina de Bellingham, uma de cada vez, leiloadas a preço de obra de arte. A linha industrial não substituiu a bancada — ela existe ao lado dela, atendendo quem nunca poderia comprar a outra.
São dois produtos diferentes para dois públicos diferentes, e ele foi honesto sobre isso desde o começo. A faca de fábrica nunca foi vendida como faca dele; foi vendida como projeto dele.
O que isso ensina a um cuteleiro daqui
Este blog é sobre o cuteleiro de fundo de quintal. Kramer é o oposto em fama — mas a trajetória dele diz três coisas que valem para quem está começando num galpão no interior do Rio Grande do Sul.
A primeira: o objeto banal pode ser o caminho. Kramer não ficou famoso fazendo peça de coleção. Ficou fazendo a faca que a pessoa usa todo dia. Aqui, o equivalente é a faca de churrasco, a campeira, a de cozinha — e não a peça de vitrine que ninguém usa.
A segunda: a reputação veio do desempenho, não da história. Antes da lenda, houve uma avaliação técnica dizendo que aquilo cortava melhor que tudo. Vale lembrar disso quando a tentação for caprichar mais na foto que no tratamento térmico.
A terceira, e a mais difícil: crescer não é trair. Kramer mostrou que dá para atender o colecionador e o cozinheiro comum ao mesmo tempo, sem que um destrua o outro — desde que se diga com clareza o que é o quê.
É exatamente o propósito deste projeto: que o cuteleiro cresça. Kramer é a prova de até onde esse caminho pode ir — de cozinheiro incomodado com faca ruim a um nome gravado em uma linha produzida no Japão pela Zwilling, sem nunca ter largado o martelo.
Uma nota sobre os números
Os valores deste artigo vêm de registros públicos e da imprensa especializada. Circula por aí que a faca do Bourdain teria sido vendida por 236 mil dólares; o valor documentado é de 231.250 dólares, incluindo a comissão do comprador, em outubro de 2019. Preferi o número que tem fonte.
Créditos das imagens
- “Kintaro’s Dream”, faca de leilão forjada por Bob Kramer — Richard W Photography, CC BY-SA 4.0
- Faca Kramer by Zwilling — Didriks, CC BY 2.0
Fontes
Referências da revalidação — 16/09/2026
- Bob Kramer — autobiografia e certificação
- Kramer — produção licenciada no Japão
- Kramer — formas de compra