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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa

A tradição da afiação japonesa: da espada do samurai à pedra d'água na tua bancada

No Japão, quem forja a lâmina não é quem dá o fio. Como o polidor de espadas virou uma profissão à parte, como mudaram as pedras de afiar, e o que tudo isso tem a ver com a chaira pendurada na tua churrasqueira.

  • Técnica
  • Afiação
  • História
Fotografia colorida à mão, de cerca de 1909: um afiador japonês ajoelhado passa uma espada sobre uma pedra apoiada numa tina de madeira, com outras espadas encostadas na parede atrás dele e uma mulher sentada ao lado segurando uma lâmina embainhada.

Uma característica marcante de parte da cutelaria tradicional japonesa é a especialização: forjar e polir ou afiar podem ser trabalhos de artesãos diferentes. Isso aparece no polimento de espadas e nas oficinas de Sakai. Não é uma regra de todo o Japão, nem uma divisão desconhecida no Ocidente. É uma tradição que ajuda a entender o cuidado com a geometria e o acabamento da lâmina.

A espada veio antes da cozinha

A afiação japonesa como arte nasce do togi, o polimento de espadas. E “polimento” aqui não quer dizer deixar brilhando: quer dizer esculpir, na pedra, a geometria final de uma lâmina que o ferreiro entregou apenas esboçada.

Desde o período Kamakura (séculos XII a XIV), o togishi — o polidor — é uma profissão distinta do katana-kaji, o ferreiro de espadas. O ferreiro domina o fogo, a dobra do aço e a têmpera. O polidor domina a pedra. A formação pode levar muitos anos, e a especialização varia conforme a oficina.

Gravura japonesa colorida de 1848: um homem de quimono xadrez sentado de pernas cruzadas no chão, o braço direito estendido, com um balde de madeira e uma pedra de afiar ao lado e duas espadas embainhadas atrás dele; no alto, uma coluna de texto em japonês. Togishi Tazaemon, gravura de Utagawa Kuniyoshi, 1848. O polidor de espadas era figura conhecida o bastante para virar personagem de lenda popular — esta estampa é de uma série sobre a história dos 47 rōnin. Repare no balde e na pedra ao lado dele: a continuidade de ferramentas tradicionais é visível.

A família Hon’ami, por exemplo, poliu e avaliou espadas para os xoguns por gerações, desde o século XIV. A palavra deles decidia se uma lâmina era obra-prima ou ferro comum — e o julgamento era feito com a espada na pedra, não no combate.

O trabalho do polidor

Um polimento completo de espada pode levar semanas de trabalho, dividido em duas etapas que têm nome: o shitaji-togi (polimento de base) e o shiage-togi (acabamento).

Na base, o polidor passa a lâmina por uma sequência de seis ou sete pedras inteiras, da mais grossa à mais fina, cada uma com nome próprio — arato, binsui, kaisei, nagura, uchigumori. É aqui que a geometria nasce: as faces planas, o chanfro da ponta, as linhas que dividem a lâmina em regiões. Um erro de meio milímetro nesta fase não se corrige depois.

No acabamento, as pedras inteiras somem. O polidor trabalha com lascas minúsculas de pedra fina, coladas em papel japonês e laqueadas, que ele move com o polegar sobre a lâmina — as hazuya para o fio, as jizuya para o corpo. Depois vem o nugui, uma pasta de óxido de ferro que escurece o aço do corpo, e por fim um bastão de aço polido que ele esfrega na parte de trás da lâmina até espelhar.

Fotografia em sépia de cerca de 1915: um homem idoso de camisa branca, agachado numa oficina de madeira, trabalha com as duas mãos sobre uma pedra retangular; ao lado, uma tina de madeira com água, uma pilha de pedras de vários tamanhos e, em primeiro plano, uma espada com o punho trançado. Oficina de afiação no Japão, entre 1914 e 1918. A pilha de pedras de tamanhos diferentes, a tina d’água e a espada em primeiro plano são o equipamento do togishi — o mesmo da gravura de 1848, o mesmo de hoje.

O objetivo de tudo isso não é só o corte. É revelar o que está dentro do aço: o hamon, a linha ondulada da têmpera que separa o fio duro do corpo mais macio, e o hada, o padrão das dobras do metal. Uma lâmina mal polida esconde os dois. Uma lâmina bem polida mostra a assinatura do ferreiro sem precisar de nome gravado.

Close de uma lâmina de katana sobre um apoio de tecido branco, com o fundo escuro; ao longo do fio, uma faixa ondulada mais clara se destaca do resto do aço. O hamon — a linha de têmpera — numa lâmina atribuída a Masamune. O polimento realça essa estrutura; a imagem não informa quanto tempo o trabalho levou.

As pedras naturais e as sintéticas

As tennen toishi, pedras naturais de afiação, variam conforme a jazida e a camada de extração. Entre os nomes conhecidos pelos afiadores estão Nakayama, Ōzuku, Narutaki, Ōhira e Shōbudani, na região de Kyoto. Não há uma única composição ou idade geológica que se possa atribuir a todas elas, nem uma classificação objetiva que as torne as melhores pedras do mundo.

Pedra de afiar natural japonesa, em tons de bege e branco, vista de cima sobre uma mesa de madeira; a face tem uma camada clara e outra mais escura, e traz inscrições em japonês a pincel preto e um carimbo vermelho no canto. Uma tennen toishi com a inscrição da procedência a pincel e o carimbo do extrator. Pedra natural não tem “grão 3000” no rótulo: cada uma é um indivíduo, e o afiador aprende a dela.

A progressão clássica é a mesma que você já conhece das pedras sintéticas: arato (grossa), nakato (média), shiageto (acabamento). A diferença está no topo. Uma pedra de acabamento natural de primeira não tem número de grão — tem temperamento. Duas pedras da mesma mina podem se comportar diferente, e um afiador sério conhece a sua como conhece a própria mão.

A disponibilidade de certas pedras diminuiu com o fechamento de minas, mas isso não significa que todas se esgotaram. Preço e oferta dependem da procedência e da qualidade da peça. Pedras sintéticas, como as de Shapton, Naniwa e King, oferecem abrasivos e ligantes controlados. Seu desenvolvimento não pode ser explicado apenas como resposta ao fechamento das minas de Kyoto.

Da espada para a faca de cozinha

Dois momentos fazem a ponte entre o togishi e o sushiman.

O primeiro é Sakai, perto de Osaka. A fabricação de facas para cortar tabaco remonta ao século XVI; o reconhecimento pelo xogunato Tokugawa pertence ao período Edo, iniciado no século XVII. A tradição local conserva a divisão de trabalho entre forja, afiação e montagem, embora a organização varie por oficina.

Faca japonesa de cozinha do tipo deba sobre uma tábua de madeira clara, com cabo de magnólia e virola escura, a lâmina larga com inscrição gravada em japonês; acima dela, a bainha de madeira. Uma deba da Jikko, casa de Sakai. A lâmina larga e pesada serve para desossar peixe, e o chanfro de um lado só — visível na faixa polida junto ao fio — é a marca da tradição.

O segundo momento é 1876, ano do édito Haitōrei, que restringiu o porte público de espadas, com exceções. A mudança contribuiu para a adaptação de oficinas a outros produtos. Não criou de uma vez os polos de Seki, Sakai, Echizen e Sanjō, cujas tradições artesanais têm histórias anteriores e diferentes.

Por que a faca japonesa exige essa arte

A faca japonesa clássica — a yanagiba do sashimi, a deba do peixe inteiro, a usuba dos legumes — tem o fio de um lado só. Chama-se kataba: uma face tem o chanfro, a outra tem uma concavidade, o urasuki, cercada por áreas de contato com a pedra.

Essa geometria favorece determinados cortes e pede manutenção específica. O chanfro pode ter convexidade e microbisel: nem toda kataba deve ser simplesmente deitada inteira na pedra. A afiação deve preservar o desenho do fabricante, inclusive as áreas de contato no verso.

A frequência depende do trabalho e do estado do fio. O acabamento kasumi, associado ao contraste entre camadas de uma lâmina laminada, não é o mesmo que hamon, produzido pela têmpera diferencial. Confundir os dois mistura construção da lâmina com tratamento térmico.

O que o gaúcho faz diferente

Em muitas facas japonesas tradicionais, a pedra é a principal ferramenta de manutenção. Isso não significa que nenhum cozinheiro japonês use chaira.

A escolha depende do aço, da geometria e do dano. A chaira lisa pode alinhar pequenas deformações; modelos abrasivos removem material. Lâminas muito finas e duras pedem cuidado especial com pressão e impactos. Nem a nacionalidade da faca nem a dureza, isoladamente, determinam a ferramenta correta.

Mas tem uma coisa que o togishi de 1848 e o cuteleiro de fundo de quintal do interior do Rio Grande têm em comum, e é o que importa: os dois sabem que o fio não é o fim do trabalho. É o começo da relação com quem vai usar. No Japão, a palavra para esse tipo de artesão é shokunin — artesão ou profissional de um ofício. Aqui a gente não tem a palavra. Tem o sujeito.

Se você quer começar a afiar na pedra, o básico está aqui. Não precisa de pedra de Kyoto. Precisa de água, paciência e de repetir o gesto até ele virar seu.


Créditos das imagens

Imagens do Wikimedia Commons, apenas redimensionadas (a gravura de 1848 teve a régua de cores do museu recortada do rodapé):

Fontes

A história das minas de Kyoto e dos nomes de pedra vem, em boa parte, de literatura de afiador e de comerciantes de pedras naturais — gente apaixonada, nem sempre rigorosa com datas. Os pontos centrais deste artigo (a separação entre ferreiro e polidor, o édito de 1876, a geometria de um lado só) estão bem documentados; o ano exato em que cada mina fechou, nem tanto. Se você tem fonte melhor, me escreva.

Referências da revalidação — 16/09/2026

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