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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa

A história das facas Eberle

De uma oficina de funilaria comprada por um menino de 16 anos em Caxias do Sul saiu a maior metalúrgica do Sul do Brasil — e a faca que virou sinônimo de lâmina gaúcha. A trajetória de Abramo Eberle e do que sobrou dela.

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Fachada de sobrado com os dizeres "Ourivesaria e Funilaria Central — Abramo Eberle e Cia", com dezenas de operários, mulheres e crianças posando em frente, em 1907.

Toda coleção de facas gaúchas tem uma Eberle. Se não tem, é porque ainda não é uma coleção. A marca aparece em toda feira de antiguidades, em todo grupo de troca, na gaveta da cozinha da casa da avó — e quase sempre acompanhada da mesma frase: “essa aí era do meu pai”.

Mas a história por trás dessa lâmina raramente é contada por inteiro. Ela começa com um menino de 16 anos comprando uma oficina de funilaria do próprio pai.

Um menino, uma funilaria e uma lamparina

Abramo Eberle nasceu em 2 de abril de 1880 em Monte Magrè, no comune de Schio, província de Vicenza, norte da Itália. Chegou ao Brasil em 1884, com quatro anos de idade, num dos primeiros lotes de imigrantes italianos que desembarcaram na Serra Gaúcha. A família se estabeleceu em Caxias do Sul.

O pai, Giuseppe Eberle, mantinha uma pequena oficina de funilaria. Quando decidiu vendê-la para se dedicar à agricultura, quem se ofereceu para comprar foi o próprio filho. A compra se concretizou em 2 de abril de 1896 — exatamente no dia em que Abramo completava dezesseis anos. (Algumas fontes registram dezessete; a data de nascimento não fecha com isso.)

Seus primeiros funcionários foram os vizinhos. O primeiro produto que saiu daquela oficina não foi uma faca: foi uma lamparina de querosene.

Retrato de estúdio de um homem jovem, de bigode, terno escuro e bengala, apoiado numa mesa de ferro Abramo Eberle em 1901, aos 21 anos — cinco anos depois de comprar a funilaria do pai. Naquele mesmo ano seus produtos já chegavam a São Paulo.

De funilaria a império

O crescimento foi rápido e teimoso. Em 1901 a produção já alcançava o mercado de São Paulo. Em 1904 Abramo se associou a uma ourivesaria mantida por Gasparetto, fundindo as duas operações na Ourivesaria e Funilaria Central — que àquela altura já empregava sessenta operários. Em 1912, a sociedade com Reinaldo Kochenborger ampliou a produção de joias.

A cutelaria só chega em 1918. É nesse ano que a Ourivesaria e Funilaria Central Abramo Eberle & Cia. começa a produzir talheres, cutelaria e objetos de mesa. Vale registrar: a Eberle não nasceu fazendo faca. Ela chegou à faca depois de vinte e dois anos batendo lata, fundindo prata e trabalhando ouro — e é exatamente por isso que as facas dela têm o acabamento que têm. Quem faz joia antes de fazer faca põe na faca um olho de joalheiro.

Dezenas de operários, muitos deles crianças e adolescentes, posando no pátio da oficina cercados de ferramentas, bigornas e peças de metal recém-batidas O pátio da oficina em 1907, com as peças e as ferramentas à volta. Repare na quantidade de crianças e adolescentes — um registro da presença de trabalho infantil naquela indústria.

Entre 1923 e 1928 vem o salto decisivo: a instalação da forja. Com ela, a empresa passa a produzir armas brancas para o Exército — espadas e facas — além de inaugurar seções de rebites, botões de pressão e artigos sacros.

O apogeu: 15 mil produtos diferentes

Entre as décadas de 1920 e 1950, a Metalúrgica Abramo Eberle S.A. — a MAESA — era a maior e mais importante indústria metalúrgica de Caxias do Sul e uma das maiores do país na categoria. Chegou a fabricar mais de quinze mil artigos diferentes: talheres, cutelaria, tesouras, artigos de montaria, fivelas, ilhoses, rebites, artigos sacros, motores elétricos, máquinas domésticas.

A metalúrgica teve grande peso no emprego local. A afirmação de que teria empregado 30% de toda a população precisa de data, número de trabalhadores e base demográfica comparável; sem isso, não é possível adotá-la como estatística confirmada.

O complexo industrial chegou a quatro unidades. A Fábrica 2, construída em 1948 com projeto do arquiteto Silvio Toigo e estrutura de concreto do engenheiro Gabriel Pedro Moacir, foi inspirada nas construções inglesas da região industrial de Manchester. Ocupa 53 mil metros quadrados na Rua Plácido de Castro, no bairro Exposição.

Retrato de homem de meia-idade, de bigode e terno, com uma condecoração presa ao peito Abramo Eberle por volta de 1930, no auge da metalúrgica. O menino da funilaria virou coronel da Guarda Nacional e vice-intendente de Caxias.

Casarão eclético de dois pavimentos com torre, telhado de cerâmica e ornamentos em relevo, hoje cercado por prédios modernos O Palacete Eberle, residência da família, ainda de pé em Caxias do Sul.

Abramo Eberle morreu em 13 de janeiro de 1945, em Caxias do Sul. Além de industrial, tinha sido vice-intendente em várias administrações e coronel da Guarda Nacional.

A faca que virou padrão

É aqui que a história da Eberle encontra a história da faca gaúcha.

Quando a Eberle começa a produzir cutelaria em escala, ela não está inventando a faca gaúcha — essa já existia, forjada por ferreiros de colônia e por mãos anônimas desde a primeira colonização. O que a Eberle faz é outra coisa: ela padroniza e distribui. A faca que antes era feita uma a uma pelo ferreiro da localidade passa a ter um modelo, uma medida, um acabamento repetível e um alcance nacional.

Isso teve dois efeitos opostos, e os dois importam para quem gosta de faca.

O primeiro é que a faca gaúcha atravessou a fronteira do estado e virou conhecida no Brasil inteiro. O segundo é que ela virou produto — e a peça de fábrica passou a ser a régua contra a qual todo mundo compara. Até hoje, quando um cuteleiro artesão mostra uma peça, é comum ouvir a comparação: “tem o acabamento de uma Eberle antiga”.

As facas que ficaram famosas

Quem procura Eberle em feira de antiguidades ou leilão vai esbarrar sempre nos mesmos nomes. Vale saber o que é cada um.

A corneta

Antes das facas, a marca. Em 1906, com a produção crescendo, os sócios decidiram que a fábrica precisava de um símbolo. Abramo tinha voltado de uma viagem a São Paulo com uma piteira de formato singular, parecida com uma trompa de caça. Na reunião, Reinaldo Kochenborger sugeriu adotar aquele desenho.

A corneta virou a assinatura da casa e ela é uma das pistas para identificar uma Eberle; a marca sozinha não autentica a peça — tanto que “faca Eberle corneta” é como as peças aparecem descritas em leilão até hoje. Nas mais antigas aparece também a marcação AE & Co ou AExCO, de Abramo Eberle e Companhia.

A gaúcha prateada

É a mais conhecida, e é dela que as pessoas falam quando dizem “faca Eberle”. Guarnição em alpaca ou em prata, às vezes com aplicações em ouro, feita na linha de ourivesaria que a empresa mantinha desde 1912. Peça de tradição e de indumentária, não de trabalho pesado.

Duas ganharam nome próprio e são as mais cobiçadas: a Negrinho do Pastoreio e a Quero-Quero — esta última numa versão que combina faca e piteira na mesma peça.

Faca gaúcha com cabo e bainha em prata lavrada com aplicações em ouro, cabeça de cavalo em relevo na boca da bainha e cena gravada na lâmina O grau de acabamento que a linha de ourivesaria permitia: prata lavrada, aplicações em ouro, cabeça de cavalo em relevo na bainha e uma cena gravada ao longo da lâmina.

Faca gaúcha com cabo e bainha em prata trabalhada com motivos florais e lâmina gravada, sobre fundo escuro Outra prateada, com motivos florais na bainha. É a peça que aparece em toda feira de antiguidades quando alguém pergunta por Eberle.

A javali

Nos anos 1960 e 70 a Eberle fez uma faca completamente diferente: lâmina de aço carbono, efígie de águia na ponta, um javali na guarda e o dorso serrilhado no desenho das baionetas de pioneiro. Ficou conhecida simplesmente como faca javali, e teve uma versão para as tropas paraquedistas em que o javali dava lugar a um paraquedas aberto.

Faca de caça com cabo em chifre de veado, guarda em forma de cabeça de javali com asas abertas e lâmina de dorso serrilhado, apoiada sobre madeira A javali: o cabo em chifre, a cabeça de javali alada na guarda e o dorso serrilhado no desenho das baionetas de pioneiro.

A mesma faca javali ao lado de sua bainha de couro costurada, com o serrilhado do dorso e o recorte característico junto à ponta bem visíveis Com a bainha de couro. O recorte junto à ponta e o serrilhado no dorso são o que a identificam à primeira vista.

Aqui cabe desfazer uma confusão comum. Essa faca teve uso militar de fato, mas não era equipamento de dotação do Exército — as descrições dos leiloeiros são explícitas: eram facas comerciais, compradas por conta própria por quem quisesse. Circula também a afirmação de que teria sido a primeira faca de sobrevivência fabricada no Brasil; é alegação de catálogo de leilão, e eu não a repetiria como fato até encontrar fonte melhor.

As espadas — essas sim, do Exército

O contrato militar de verdade não era de facas: era de espadas. A partir de 1923, com a forja recém-instalada, a Eberle passou a fornecer espadas ao Exército Brasileiro, e depois a exportar para Chile, Argentina, Estados Unidos e Arábia Saudita.

Essa é a linha que sobreviveu à empresa. A Sabresul, fundada em 2005 por ex-funcionários da Eberle, segue forjando em Caxias do Sul cerca de sete mil espadas e espadins por ano. Cem anos depois, a cidade continua fazendo a mesma coisa.

O fim, e o que sobrou

O declínio começa nos anos 1960, com a concorrência apertando. O filho Júlio Eberle administrou a empresa por mais de vinte anos depois da morte do pai, mas a tradicional metalúrgica acabou vendida em 1985 ao grupo Zivi-Hércules, dando origem ao grupo Zivi-Hércules-Eberle. Entre 1994 e 2003, uma nova reorganização societária transformou o conjunto na Mundial S.A., que segue atuando em cutelaria e ferramentas.

A fábrica em Caxias foi desativada na década de 1990. Em 28 de janeiro de 2015 o complexo da antiga MAESA foi tombado como patrimônio histórico municipal. Hoje o prédio é objeto de projetos de revitalização — a “Cidadela Maesa” — e o galpão onde se forjaram espadas para o Exército é discutido em audiência pública como espaço cultural.

Prédio industrial branco de cinco andares com torre de relógio, o nome EBERLE ainda pintado na empena lateral, com lojas no térreo e movimento de rua O prédio da metalúrgica em Caxias do Sul. O nome ainda está lá na empena, o relógio ainda está na torre, e no térreo funcionam lojas que não têm nada a ver com aço.

Busto de bronze de um homem de terno sobre pedestal de pedra, entre galhos de árvore O busto de Abramo Eberle, na praça que leva seu nome em Caxias do Sul.

Por que a Eberle abre este blog

Não dá para entender a faca gaúcha de hoje sem entender a Eberle. Ela é a régua, o ponto de comparação e, para muita gente, a primeira faca boa que teve na mão.

E a história dela guarda uma coincidência que diz tudo sobre este projeto: a maior metalúrgica do Sul do Brasil começou exatamente como começam os cuteleiros que o Lâmina Gaúcha quer registrar — uma oficina pequena, no fundo do terreno, com os vizinhos de funcionários e uma peça de cada vez.

A diferença é que a de Abramo Eberle cresceu.

É por isso que aqui cabem as duas pontas. Os perfis de cuteleiros são dedicados a quem ainda está na primeira ponta, forjando de galpão. O blog conta a história inteira — inclusive a das casas que chegaram na outra. Uma coisa é o retrato do começo; a outra é a prova de que o começo leva a algum lugar.


Uma pergunta em aberto, para quem sabe mais do que eu: é voz corrente que muitos cuteleiros da Serra montaram oficina própria depois de passar pelo chão de fábrica da Eberle. Faz todo sentido — mas não encontrei documentação que sustente isso, e não vou afirmar o que não posso provar. Se você é cuteleiro e trabalhou lá, ou conhece quem trabalhou, me conte essa história. É exatamente o tipo de coisa que este blog existe para registrar antes que se perca.


Créditos das imagens

As fotos históricas e arquitetônicas vêm do Wikimedia Commons e foram apenas redimensionadas para a web.

Domínio público — as quatro fotos históricas: a fachada da Ourivesaria e Funilaria Central (1907), o pátio com os operários (1907), o retrato de 1901 e o retrato de autoria de Julio Calegari (c. 1930).

Cedidas ao Lâmina Gaúcha — as quatro fotos de facas (as duas gaúchas prateadas e as duas javali), publicadas com autorização.

Creative Commons — as três fotos atuais, usadas sob os termos de suas licenças:

Fontes

Os dados sobre a faca javali e os modelos com nome próprio vêm de descrições de catálogos de leilão — texto comercial, não fonte histórica. Estão aqui pelo que descrevem das peças, não como autoridade sobre a história. Se você tem documentação melhor sobre esses modelos, me escreva.

Referências da revalidação — 16/09/2026

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