A cutelaria que também virou Taurus
Em 1931, imigrantes de origem alemã se juntaram a dois donos de oficina de Porto Alegre para fazer faca e tesoura. Dois dos sócios participariam, anos depois, da fundação da Taurus.
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Toda cozinha gaúcha tem uma tesoura Hercules — ou teve. É a marca da lâmina reta, do cabo preto, daquele “tec” seco quando fecha. O que quase ninguém sabe é que os dois sócios que ajudaram a criar essa tesoura, poucos anos depois, participaram da fundação da Taurus, em 1939.
Essa não é uma história sobre faca. É sobre o que uma sociedade de fundo de oficina em Porto Alegre, nos anos 1930, foi capaz de espalhar.
Três irmãos e dois donos de oficina
Em 1931, em Porto Alegre, os irmãos Paul, Fritz e Ernest Zivi — imigrantes de origem alemã, chegados ao Brasil com experiência em cutelaria — se associaram a João Kluwe Jr. e Herbert Müller, dois sócios que já tinham uma oficina de artigos de ferro, lata e alumínio na cidade. Da união nasceu a Zivi, Kluwe, Mueller & Cia.
A ideia era repetir no Brasil o que já dava certo na Alemanha: fabricar facas e utensílios domésticos com técnica de verdade, não de improviso. Para isso vieram mestres cuteleiros alemães, contratados para ensinar o ofício aos operários daqui.
O Mercado Público de Porto Alegre, em fotografia de 2008. Já estava de pé havia mais de sessenta anos quando
os irmãos Zivi desembarcaram na cidade, em 1931 — não é a fábrica, é a cidade que os
recebeu.
Da faca à tesoura, e um nome que ficou
Em 1935 a empresa passou a produzir também tesouras — e elas se tornariam, décadas depois, um dos produtos mais lembrados da casa. No ano seguinte, 1936, a fábrica se instalou no bairro Passo d’Areia sob a marca Hercules, lançando ali a primeira cutelaria em aço inoxidável fabricada no Brasil.
(Vale registrar a divergência: a cronologia institucional da Mundial distingue a Zivi, de 1931, da criação da Hércules, em 1936. Sigo aqui a cronologia mais detalhada que encontrei — sociedade em 1931, marca e aço inox em 1936 — em concordância com essa fonte institucional. A composição societária detalhada ainda depende de documentação empresarial da época.)
A saída que virou Taurus
Aqui a história sai da faca por um instante. Em novembro de 1939, ainda sócios da cutelaria, João Kluwe Jr. e Herbert Müller se juntaram a outros quatro empresários — Ademar Orlando Zanchi, Oscar Henrique Purper, Eugênio Ervin Hausen e João Guilherme Wallig — para fundar a Forjas Taurus, em Porto Alegre. O impulso, segundo o que se conta, veio do contexto de início da Segunda Guerra Mundial e dos incentivos do governo Vargas à indústria nacional de base. A empresa chegou a encomendar maquinário da Alemanha; com a guerra começando naquele mesmo ano, o pedido nunca chegou, e a Taurus teve que construir suas próprias máquinas para sair do papel.
Hoje a Taurus é uma das maiores fabricantes de armas curtas do mundo. E ela nasceu do mesmo par de sócios que ajudou a pôr a Hercules de pé.
Kluwe e Mueller só deixaram formalmente a sociedade da cutelaria em 1942, quando a empresa passou a se chamar Zivi & Cia — já com a Taurus rodando havia três anos em paralelo. Foi nesse mesmo ano de 1942 que apareceu, pela primeira vez, o nome que décadas depois batizaria o grupo inteiro: os talheres e facas Mundial.
O que ficou em Porto Alegre
A fábrica de Passo d’Areia se mudou para Gravataí em 1981, ainda como Zivi & Cia — quatro anos antes de comprar a metalúrgica Eberle, de Caxias do Sul, e formar o Grupo Zivi-Hércules-Eberle. Essa fusão, e o que veio depois dela, é assunto do próximo artigo desta série.
Do endereço original, na Rua Visconde de Pelotas, sobrou pouco visível: a Fundação dos Funcionários das Empresas Zivi S/A e Hércules S/A ainda existe, registrada no mesmo bairro, assim como uma associação esportiva que carrega o nome da dupla até hoje. É o mesmo tipo de rastro que a Eberle deixou em Caxias — uma fundação, um clube, um nome que sobrevive à fábrica que o gerou.
A marca Hercules segue viva, hoje fabricada em Gravataí sob o guarda-chuva da Mundial S.A., ao lado das tesouras e facas que também assinam Mundial e Eberle.
Por que essa história cabe aqui
O Lâmina Gaúcha já contou a história da Eberle — o menino que comprou a oficina do pai. A Hercules é a outra metade da mesma moeda: não um garoto de colônia, mas irmãos que atravessaram um oceano com um ofício na bagagem, numa capital que crescia rápido demais para não precisar deles.
As duas histórias se encontram em 1985, e é aí que este blog vai contar a próxima — a da fusão que virou Mundial.
Uma ressalva sobre as fontes, no mesmo espírito da que abre o artigo da Eberle: a cronologia mais detalhada usada aqui — datas de 1931, 1935/1936, o nome da sociedade original — vem de uma página especializada em facas de coleção que saiu do ar durante a apuração deste texto, e que não consegui recuperar em arquivo. A ligação entre a Hercules e a Forjas Taurus, por outro lado, tem confirmação independente: os mesmos nomes (João Kluwe Jr. e Herbert Mueller) aparecem entre os fundadores da Taurus em fontes que nada têm a ver com cutelaria. Se você tem documentação de época sobre a Zivi-Kluwe-Mueller, me escreva.
Créditos da imagem
- Mercado Público de Porto Alegre, 2008 — Ricardo André Frantz (Tetraktys), CC BY-SA 3.0
Fontes
- Mundial SA - História
- Forjas Taurus S.A. — Wikipédia
- Origem das Marcas: Taurus Armas (ex-Forjas Taurus)
- Alquimia Logística: Mundial SA - Breve Histórico
- Antiga Fábrica de Talheres Zivi Hércules — Wikimapia
A data exata da fundação da Zivi-Kluwe-Mueller e o ano em que a marca Hercules nasceu divergem entre as fontes consultadas (1930 ou 1931; 1933, 1935 ou 1936). Optei pela versão mais detalhada e internamente consistente, mas nenhuma das fontes é documentação primária — o mesmo aviso que já valia para a Eberle vale aqui.
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